Dizer “sim” a mais uma tarefa quando as que temos já nos pesam demasiado? Aceitar estar sozinha com o peso da responsabilidade doméstica quando existe um parceiro com quem se divide a vida? Tomar as responsabilidades dos filhos como algo que se faz individualmente quando há um pai com tempo e possibilidade de fazer a sua parte? Há alguma destas ou de questões similares que vos sejam conhecidas? Então, continuem a ler.

E continuem a ler porque talvez seja tempo de perceberem por que razão têm tanta dificuldade em dizer “não”, em impôr limites, em tratarem-se bem e darem-se o tempo que precisam. Por cada uma de vocês que lê e se identifica com estas palavras, haverá, seguramente, razões diferentes.

Porém, por mais diferentes que sejam os motivos, é provável que desemboquem na mesma questão: temos dificuldade em dizer “não” porque receamos que, ao fazê-lo, os outros nos abandonem e confirmem o que pensamos sobre nós mesmas; que não somos suficientes nem dignas de sermos amadas.

Mesmo que, à superfície, consigamos encontrar razões plausíveis e racionais para acudirmos sempre às urgências dos outros e ignorarmos s as nossas, a verdade é que, escavando e indo mais fundo, é à volta desta noção de amor próprio e do amor que achamos merecer, que revolvem estas questões.

Enquanto acharmos que estamos a ser egoístas por nos colocarmos em primeiro lugar na nossa vida; enquanto amarmos os outros de tal modo que nos esquecemos que também precisamos de ser amadas; enquanto não percebermos que somos nós que ensinamos os outros a lidar connosco e a mostrar-lhe como queremos ser tratadas;

no fundo, enquanto amarmos mais os outros do que nos amamos a nós mesmas, vamos ser estar em último nas suas e nas nossas prioridades.

Bem sei que devem estar agora a dizer que isto é mais simples dizer do que fazer. E é, naturalmente, como tudo o resto. Mas a questão não é se é fácil ou difícil, a questão é quanto tempo mais estamos dispostas a aguentar tratarmo-nos abaixo do que tratamos os outros e ser tratadas de um modo como nunca trataríamos os outros. É esta a primeira pergunta que nos devemos fazer, seguida de: como mudar?

Como calculam, não tenho uma resposta. Até porque não me cabe a mim responder. O que posso dizer é que, desde que me lembro, que tenho questões destas, apenas tratadas e, em parte, mitigadas pela terapia que faço.

E, também por isso, vos posso dizer com segurança: tratar de nós não é não tratar dos outros; amarmo-nos e valorizarmo-nos não é ignorar os outros; estarmos para nós como estamos para os outros implica saber quais são os nossos limites e quais as situações que nos pedem que estejamos primeiro que eles.

Mais uma vez, é mais difícil do que parece? Talvez, não sei. Só sei, da minha experiência, que o único caminho viável é o do amor por nós mesmas.

Fotografia: Istockphoto

3 Replies to “Por que razão é tão difícil dizer “não”?”

  1. Sinceramente sou dessas pessoas que não consegue dizer não! Um murro no estômago descobrir aquilo que já sabia mas que não queria ver, porque apesar de gostar muito de mim, a verdade é que tenho a auto-estima lá em baixo e ando sempre a fazer tudo pelos outros… Já fiz terapia mas se calhar está na altura de voltar.. Obriagada Sisi por este artigo!

  2. Sempre tão interessantes os temas
    Neste, como em outros, revejo-me e hoje fiquei a pensar que isto de nunca me colocar em primeiro lugar é uma realidade e quando o tento fazer sinto culpa.
    Realmente o primeiro passo é mesmo valorizar-me
    Obrigada por me colocarem a pelo menos pensar no assunto com nova perspectiva.

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