Que fique claro que aqui na Liiv somos pessoas optimistas e positivas. Regra geral, somos bem dispostas, alegres, olhamos a vida de frente e sabemos que ela depende mais do que fazemos dela do que de alguma coisa que esperamos que aconteça. Porém, isso não significa que embarquemos no comboio do “o que interessa é pensar positivo”.

Dezenas de livros de auto-ajuda depois, eu diria que o importante é pensar, por isso, quero elencar as duas razões principais pelas quais me parece que esta ditadura do positivo pode trazer consequências perigosas e levar a um tipo de funcionamento mental maniqueísta e pouco produtivo. Mais uma vez, não falo de optimismo, falo desta imposição do que é positivo e bom e uma consequente negação do que é negativo e mau. Procura-se com afã a primeira; rejeita-se com violência a segunda.

Pensamento mágico

É o mais óbvio problema deste modo de olhar o mundo e a si mesmo. Há quem seja tão firme nesta obstinação com o pensamento positivo, que os desejos correm o risco de passarem a ser realidade, numa quase dissociação entre o que se quer e o que se tem. É a “magia” a acontecer pela força do pensamento e a negação a ter lugar, por receio de acontecimentos nefastos originados por pensamentos negativos.

Este tipo de formulação é clara em contextos médicos. Quantas nós não ouvimos já dizer que “o que é importa é pensar positivo” num diagnóstico de cancro, por exemplo? Uma coisa é confiar no tratamento; outra, muito diferente, é achar que o facto de pensarmos desse modo vai gerar mudanças físicas capazes de debelar uma doença. Não é verdade, não existem evidências científicas que corroborem essa ideia.

Pelo contrário, ao não verbalizarmos a dor, o medo, o sofrimento e a dúvida que um diagnóstico de doença potencialmente fatal sempre implica, estamos, sim, a contribuir para mau-estares vários e, no limite, a ansiedade, depressão e outras condições associadas. O que pode matar é o cancro, não é o que pensamos sobre ele. O que nos pode fazer viver nesse contexto é uma combinação de um corpo que resiste, de um tratamento eficaz e de um entorno médico e social favorável. Ser optimista ajuda nesses casos? Claro. Olhar a coisa apenas por um prisma, nem por isso.

Repressão e negação

Esta é a consequência mais nefasta deste tipo de visão porque é como se, ao aderir a esta “filosofia de vida”, não nos pudéssemos permitir a ter medo, insegurança, a sofrer, e estar zangados. Não há emoções boas ou más, há aquelas com as quais sabemos lidar melhor ou pior e isso depende de cada um. Mas todas elas fazem parte do que somos e são informação preciosa para nos compreendermos melhor, para percebermos onde estamos a colocar a nossa energia e foco.

Dizer que está “tudo bem” quando não está, não afasta o problema, pelo contrário, aumenta-o. Reprimirmos o que sentimos, negarmos que há dias em que parece que o sol só brilha para os outros, momentos em que nos sentimos largados por todos e pelo mundo, não é ser negativo, é ser pessoa, é ser humano. Aceitar essas emoções, aprender a viver com elas, isso sim, é positivo.

O que esta tirania do pensamento positivo nos diz é que tudo muda se pensarmos positivo: o mundo, as pessoas, os acontecimentos, tudo se altera pelo simples facto de ignorarmos que, perante um contexto com vários desfechos, se formos suficientemente bons a pensar positivo, o positivo acontece-nos. E quando assim não é? É porque não pensámos o suficiente? Não somos bons o suficiente? Enfim.

Para que serve então o pensamento positivo?

Para nos dar esperança, que é uma coisa de que todos precisamos. A necessária para sermos funcionais, para aspirarmos a coisas boas, para confiarmos que a vida é muito o que fazemos dela. Olhar para o lado positivo de uma situação que nos causa dor não tem qualquer problema, desde que não ignoremos a dor e que nos permitamos senti-la no tempo necessário.

Pensemos positivo, sejamos optimistas, vejamos a luz no buraco mais negro, mas não nos demoremos na ideia de que pensar positivo é um mecanismo de controlo do que nos rodeia. Ele não impede que as dores e as situações nefastas nos aconteçam.

Não há situações simples para os problemas complexos que a vida nos traz. E isto é o mais importante a reter.

Fotografia: Istockphoto

2 Replies to “Os perigos do “pensamento positivo””

  1. E é mesmo por artigos destes, bastante lúcidos, que gosto de vos ler. Diz que está em voga substituir terapias com eficácia comprovada por reikis e tal. Não me interpretem mal, reiki pode ser benéfico, mas nunca devemos tapar o sol com a peneira, quando há energia para tal, temos mesmo de enfrentar os problemas e procurar ajuda e as melhores soluções possíveis . Obrigada pela escrita com que nos brindam!

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