Já há muito tempo que planeamos falar de fé mas como o nosso padre Paulo Duarte, sj foi tão acarinhado por vocês aquando do “10 minutos com”, tendo algumas de vós pedido para que ele voltasse, aqui está. Quem melhor que ele para falar de fé? Estas palavras são do seu livro Deus como Tu, da Matéria-Prima Edições. 

A fé como caminho, por Paulo Duarte

A minha história vocacional teve e continua a ter muitas questões sobre a fé. Mas será que ela se coloca apenas ao nível religioso? “Acreditar, dar crédito, é afirmar a existência.” Quando vamos a um congresso, passamos pela secretaria para levantarmos a nossa acreditação. A partir daquele momento, estamos em pleno no congresso, com todos os direitos, incluindo de participação.

Do mesmo modo, a racionalidade e a espiritualidade são o nosso certificado de participação neste partilhar comum de humanidade, com o melhor e o pior que ela possa ter.

A fé, antes de ser religiosa, ou teológica, é antropológica. Tenho fé que em que o motorista ou o piloto me leve do sítio A ao sítio B. Tenho fé que num restaurante não me servem veneno. Não são as dúvidas que levam à falta de fé, são os abusos de poder ou desequilíbrios mentais ou sociais que levam ao caos e à crise. A desconfiança, em conjunto com a ignorância, são os grandes inimigos da fé. O exagero, por excesso ou por defeito, é uma porta de fundamentalismo que descredibiliza a realidade, rouba a crença e a participação cívica.

Viver com fé implica o mistério que retrata a beleza e a complexidade do que somos. Nas aulas de Ontologia, José Rui da Costa Pinto,sj usou uma expressão que me acompanha: “Eu somos!” Ou seja, estamos sempre em relação com tudo o que nos envolve.

Somos, de modo especial, na relação com os outros e com o que nos rodeia, o que nos permite dialogar e conhecer as várias perspectivas de cada um de nós e do que podemos dar. Mesmo as mais negativas. Assim, o mistério não é o que não se conhece, mas o que nos aumenta a possibilidade de conhecer mais e melhor do que somos.

A religião é encontro. A religião não é separação. Ela é caminho de profunda relação entre a divindade e a humanidade. Na beleza dos rituais que transfiguram as palavras e os gestos, a religião deve ser promotora de unidade. Infelizmente, muitos abusaram e abusam do poder presente no religioso, degenerando a essência da relação que a religião promove.

A fé, no caminho de vida, não é isenta de dúvidas, de questionar o que nos envolve. (…) As tais interrogações acontecem muitas vezes em momentos mais sombrios, de lutos, até, em transformações de relação com outros e com Deus.

(…)

Deus, na confiança que tem em nós, resgata-nos a partir da nossa verdade, da nossa autenticidade.

Fotografia: Istockphoto

2 Replies to “Padre Paulo Duarte: “A fé não é isenta de dúvidas.””

  1. Sempre muito esclarecedoras, simples e claras as palavras do padre Paulo Duarte. A mensagem é transmitida; ajuda a abrir os olhos, os ouvidos, o coração, a mente, a alma…

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