Durante anos achei que as pessoas mais bem-sucedidas eram as que estavam sempre motivadas. Parecia que havia nelas um impulso natural, constante e intenso, fosse para aparecer religiosamente na aula de ginástica, cumprir um dieta até ao fim ou manter o foco num objectivo, apesar das dificuldades.

Mas acabei por perceber que não é bem assim. Entre a minha própria experiência, os livros que li e as pessoas que conheci, cheguei à conclusão que essa motivação permanente não é mais do que um mito. E passo a explicar porquê.

 

O nosso cérebro e o stress

A dieta é um bom exemplo. Saímos da consulta do nutricionista de plano alimentar na mão. Vamos directas ao supermercado comprar os alimentos em falta e a dieta começa logo naquele dia. O jantar já reflecte as novas regras e, apesar de o estômago estranhar a diferença, vamos dormir contentes com a nossa decisão. Estamos motivadas. É desta que damos a volta aos quilos a mais.

Uma semana depois, esta cada vez mais difícil cumprir o plano. Falta-nos aquele prato cheio de massa e o croissant com creme. Resistimos, mas já sem ânimo. Sentimos algumas diferenças no nosso corpo, mas estamos ainda longe do objectivo. Valerá mesmo a pena? Se calhar não fomos talhadas para isto. Não somos como aqueles casos de sucesso do Instagram. Venha daí o croissant, hoje, amanhã e depois, que se lixe a dieta, não quero mais sofrer. Já não estou motivada.

O que aconteceu aqui? A energia, o impulso inicial, a tal motivação, desapareceu. E porquê? Porque o nosso cérebro está preparado para nos proteger do sofrimento, da dificuldade, da ameaça, ou seja, das fontes de stress.

Quando as reconhece, o cérebro reage provocando alterações fisiológicas (accionadas por hormonas) que nos fazem lutar ou fugir. Foi, aliás, assim que a espécie sobreviveu, porque soube fugir daquilo que a podia escapar e lutar contra aquilo que era capaz de vencer.

Mas então nós a e nossa dieta? Ao decidirmos com base nas emoções (ou seja, no que sentimos perante algo que gera sofrimento), relativizamos o objectivo final, fugimos, desistimos. O impulso para parar é mais forte do que o impulso para agir (a tal motivação).

 

Contrariar a emoção

Ora bem, é mais do que natural e humano perder a motivação, ou não tivéssemos um cérebro que teima tanto em nos proteger. Mas o erro é, em muitos casos, desistir, assumindo que se essa motivação desaparece ou fraqueja, não vale a pena continuar.

Qual é a alternativa? Puxar pelo nosso lado racional, manter o foco no objectivo e fazer, apeteça ou não apeteça. Lembremo-nos de slogan da Nike, Just do it. Se, em determinado momento, definimos uma meta que é importante para nós e que nos vai trazer bem-estar e realização pessoal, temos de nos agarrar a ela independentemente da vontade, porque ela oscila muito, em todas as pessoas.

Temos de ir ao ginásio mesmo nos dias em que não nos apetece ir, ter aquela conversa difícil mesmo que tenhamos medo, levar até ao fim um plano alimentar mesmo que haja dias em que o detestamos.

É isso que irá definir o nosso caminho. Essas escolhas diárias, racionais, que determinam a forma como permanecemos nos desafios. Porque esses desafios irão, mais tarde ou mais cedo, ser uma fonte de stress e de desmotivação.

 

Até parece fácil

Eu sei que não é. Sei muito bem que não é fácil. Mas é um músculo que se exercita e que nos dá grande autonomia. Sinto que é um músculo que hoje tenho mais forte mas que ainda está longe de resistir a todas as cargas.

No entanto, é importante perceber que, em certas fases da vida, não conseguimos suportar nem mais uma fonte de stress. Há dias em que não nos podem vir falar de resistência extra, porque mal conseguimos tolerar a pressão diária a que estamos sujeitas. Nesse caso, há que dar tempo ao tempo, esperar por um novo ciclo e tentar de novo.

Mas para as pessoas que se sentem agora capazes de agarrar um novo (e desejado) desafio, deixo a sugestão: quando se sentirem a hesitar, a recuar, avancem. Por mais entusiasmadas que estejam agora, esse dia de merda vai chegar. E nesse dia, não pensem, não se deixem bloquear pelas dúvidas. Just do it.

Não dêem muito valor àquela voz que diz “se calhar hoje não, não sou capaz, nunca lá vou chegar”. Muitas vezes é durante a acção, mesmo que contrária à nossa vontade inicial, que redescobrimos a tal motivação.

E contem-nos a vossa experiência. Seria muito bom aprendermos, umas com as outras, a ser mais resilientes, qualidade que não pertence a uma elite, está ao alcance de todas nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *