Não vou estar com rodriguinhos neste particular: as listas de gratidão são das coisas mais perniciosas que podemos fazer por nós, caso não tenhamos o cuidado de olhar para o lado negro da nossa força, de vez em quando. Deixem-me contar-vos uma história. A minha.

Estávamos em 2006, vivia eu em Londres, quando ouvi falar de coaching pela primeira vez. Sempre me interessei pelas questões da mente e natureza humanas e esta área de trabalho mostrava ser possível uma nova forma de pensar, focada na solução e não no problema. Tudo fez sentido para mim, pessoa que, na altura, tentava evitar tudo o que me colocasse em contacto com as minhas mágoa e dores.

Anos depois, voltei para Portugal e fiz a minha primeira formação. A partir daí, mergulhei fundo, não apenas no coaching, mas em tudo o que era livro de auto-ajuda, palestra, workshop, ajuntamento de pessoas, tudo o que me fizesse aprender sobre esta nova área de auto-conhecimento. De todas as sandices e loucuras que aprendi, há uma delas que se torna especialmente perniciosa: as listas de gratidão. Sobretudo quando juntas com a outra ideia perigosa, a do pensamento positivo.

Também eu fiz várias listas de gratidão. Exaustivas, detalhadas, minuciosas, agradecia por cada flato que dava, como sinal de que tinha um corpo que funcionava em pleno. Meses depois, as dores que me assolavam continuavam cá e da gratidão que era suposto sentir, nem sinal. O que se passaria comigo? Alguma coisa estava errada, seguramente.

De um modo quase imperceptível, comecei a pressionar-me para “ser cada vez mais grata”: não tinha trabalho mas ao menos estava viva; as minhas análises não eram brilhantes mas ao menos não era cancro; estava para lá de carente mas ao menos não estava numa relação má; não tinha grande relação com os meus pais mas ao menos eles estavam vivos; não tinha dinheiro nem poupanças, mas ao menos não me faltava comida na mesa. Não tinha um rumo, uma direção, um caminho mas ao menos tinha uma merda de uma lista de gratidão. Alguma coisa mudou, sim. Estava cada vez mais zangada.

Até que voltei à terapia. Deixei a modernidade de lado e voltei ao que sempre conheci, um caminho duro mas incomparavelmente melhor. No final da sessão, depois de uma súmula do que tinha ouvido de mim, ouvi a terapeuta: “a sua vida está de facto complicada, neste momento.” E isto era tudo o que eu precisava, alguém que me libertasse do jugo de uma gratidão fajuta e me “autorizasse” a sentir-me uma merda porque a minha vida estava, de facto, uma merda.

Foi aí que decidi começar a fazer listas de INGRATIDÃO, onde elencava todas as razões que me deixavam triste, zangada, magoada, que me mostravam que era possível sentir emoções negativas sem me desfazer. As pessoas que me tinham magoado, as palavras injustas que ouvi vezes sem conta, o colo que não me foi dado, o amor que não me foi feito sentir, apontei tudo.

Isso permitiu-me, finalmente, entrar em contacto com as razões que me deixavam para baixo, que me levavam a tomar decisões menos avisadas e a fugir de encarar a vida como ela era.

Focar no positivo, olhar para o lado bom da vida, são práticas que, para algumas pessoas, pode ajudar a fazer brilhar o seu estado de espírito. No meu caso, e no de tantas outras que, anos mais tarde, entram consultório dentro em busca de psicoterapia, isso faz com que a vergonha, a zanga, a raiva, o ódio, a frustração, o medo, a tristeza, fiquem entalados algures entre uma frase bonita para o Instagram e um item de uma lista pouco real.

De que modo é suposto ajudar-me o sofrimento dos outros? E havendo pessoas a sofrer por terem uma vida pior que a minha, isso significa que eu não posso ficar triste pelo que me acontece? O sofrimento e a dor não são propriedade de ninguém, calha a todos, excepto, talvez, a quem faz listas de gratidão, de forma compulsiva, desenfreada e sem pensamento.

O que a minha lista de ingratidão me ensinou foi a fazer o luto de tudo o que queria ter e não tive e já não terei, de todas as pessoas que me magoaram e deixaram marcas para sempre e de todas as vezes que me senti esquecida, mal amada e largada pela vida. Escrevê-las não as fez desaparecer, mas ajudou-me a reconhecê-las, aceitá-las e, em terapia, tratar dos efeitos colaterais.

Hoje em dia, de cada vez que acordo cheia do lado negro da força, deixo que ele venha cá fora ver a luz do sol. A maior parte das vezes, ele volta para dentro, sozinho, sem que eu dê conta. E não precisei de uma lista para isso. Preciso, sim, de ser honesta comigo mesma, ser atenta ao que sinto e ter a ajuda que preciso.

Troquei as listas de gratidão por voluntariado. Se é para me sentir grata, ao menos que seja uma coisa menos umbiguista.

Fotografia: Istockphoto

4 Replies to “Lista de gratidão? Fujam dela!”

  1. Como a compreendo… Agora parece que é moda o pensamento positivo e sinto-me uma ET quando me queixo de alguma dor ou desilusão.
    Todos temos alturas más, dias em que não apetece aturar ninguém… dias em que nem eu própria me aturo.
    E tenho esse direito sim senhora. Porque nos outros dias as coisas compõem-se de uma maneira ou de outra.
    Há tempos seguia um blog mas comecei a ficar “enjoada” com tanta coisa boa para acontecer, agradecer e fazer… Deixei de seguir porque a vida real não é assim. Temos de ter espaço para o bom e para o mau. E temos de vivênciar tudo igualmente… Só assim temos uma vida equilibrada. Fundamentalismos não é comigo.
    Boa páscoa
    Marta
    https://pitinhosdamarta.blogspot.com/

    1. É isso mesmo, Marta, a vida é composta de tudo, bom e mau. Se nos condicionamos a olhar só para o que nos dá mais jeito e evitamos sentir e lidar com o mais difícil, a vida empobrece e corremos o risco de adoecer. Um beijinho e boa Páscoa.

  2. A vida é feita de bons e maus momentos;cada momento ensina-nos coisas que podem nos ensinar a ultrapassar os maus momentos e a melhorarmos os próximos bons momentos.Contudo devemos ter em conta que não há bem que sempre dure nem mal que nunca acaba.

  3. Senti enorme empatia com o texto…..como poderia ser tão ingrata se tinha tanto, se filhos tinham saúde, se tinha trabalho, se tinha competências……se várias coisas, mas para as conseguir foi com dor, com desilusão, com separação, com sonhos devastados…..
    Como poderia estar grata e querer uma vida diferente?
    Como posso ser merecedora se não sou grata?
    Como posso querer mais e não ser isso sinal de ingratidão?
    As dores ainda doem algumas, outras passaram, deixando a sua cicatriz, a maioria sem represália.
    Ainda só não descobri o caminho e o pensamento que me fará desbloquear. ainda não encontrei a força que permite voltar a ter a independência na minha vida com os filhos…..acredito que isso já não vem nem da gratidão nem da ingratidão nem do merecimento…..vem dos valores e da auto-visão.
    Grata

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