Sei que fica muito bem dizer, principalmente nas entrevistas de emprego, que lidamos muito bem com críticas e que as apreciamos porque nos fazem evoluir e blábláblá. Tudo isto pode ser verdade, mas gostar, gostar, não conheço ninguém que goste. O segredo está sim em perceber as suas vantagens e não permitir que as críticas nos destruam emocionalmente.

É claro que há críticas e críticas. Por isso, vamos já pôr de parte as que são insultuosas, humilhantes e resultado de um exercício de poder pelo poder. Se assim for, podemos estar a falar de mobbing e não daquele que deve ser um ambiente minimamente saudável dentro de uma equipa de trabalho.

O que quero falar é da apreciação que é feita do nosso trabalho e da forma como encaixamos essas avaliações. De que maneira nos afectam? Como lidamos com o facto de alguém dizer que falhámos redondamente? Ou, como me dizia um chefe, há alguns anos, com toda a calma: “sim, sim, estou ver.. Mas agora faz em bom, sim?”

Durante muitos anos, vivia torturada (ou melhor, torturava-me) com a ideia de falhar. Sofria muito, um desgaste emocional enorme, principalmente antes de uma apresentação, de uma reunião importante, de um qualquer momento em que me sentisse a prestar prova. Hoje olho para trás e vejo que foi exactamente no início da minha carreira, quando não saber era mais do que aceitável, que mais sofri com as críticas ou a sua mera possibilidade.

 

“Não leves isso tanto a peito”

Ouvi esta frase algumas vezes, dita por pessoas mais próximas, que me viam ficar cheia de dúvidas sobre a forma como os outros me olhariam após fazerem uma crítica ao meu trabalho.

Mas tudo isto se resumia, não a eles, mas a mim e ao modo como eu encarava o erro, a falha, ou tudo o que não fosse excelente. Na verdade, encarava as críticas como uma confirmação de que eu não era capaz. E essa insegurança, potenciada por uma forte veia perfeccionista, estava a roubar-me a energia criativa e positiva, aquela de que precisava para realmente me superar e evoluir.

Convenhamos que uma apreciação negativa toca-nos sempre a um certo nível pessoal; parte de nós está ali, depositado naquele texto, naquele raciocínio, naquela opinião. Mas hoje, apesar de não desejar ardentemente que me apontem falhas, interiorizei realmente a vantagem de ser criticada: poder aprender, poder evitar que o erro se prolongue ou repita, em prol do bem comum da equipa.

 

Maturidade, segurança ou outra coisa qualquer

O que vos digo é que, com o tempo e a experiência, deixei de estar tão centrada em mim e comecei a focar-me mais nos outros e no trabalho. Na qualidade final do que fazemos enquanto grupo.

Ao deslocar-me do meu umbigo cheio de inquietações metafísicas de perfeição obsessiva, percebi que todos falhamos, todos tropeçamos. Que o que nos distingue é a capacidade de arriscar e tentar, de nos prepararmos e voltarmos à batalha. E que a opinião dos outros é apenas isso: a opinião dos outros. Algo que podemos ter mais ou menos em conta, que pode obrigar-nos a algo (nomeadamente no local de trabalho), mas que não nos constrói ou destrói.

Percebi que somos o somatório do que nos acontece e do que fazemos acontecer, todos os dias. E desse caminho nasce um resultado único, original, irrepetível. No fundo, deixei de encarar a vida como uma corrida imaculada e passei a olhá-la como  surf: todos os dias apanhamos ondas, umas fabulosas, outras que nos deixam enroladas na areia. Mas ambas nos preparam para o imprevisto, para a possibilidade, para a surpresa, para a maior onda das nossas vidas.

Portanto, respirem fundo, encaixem as críticas com a elegância e a sabedoria possíveis. Retirem delas o melhor que nelas houver e cresçam. É mesmo para isso que elas servem.

One Reply to “Liiv Inside Job: Adoramos críticas, não adoramos?”

  1. Olá Liliana,
    Identifico-me em tu o que escreveu. Já recebi críticas construtivas no início da minha carreira e já sofri de mobbing. O que lhe posso dizer é que aprendi com ambas as formas, mas a forma como as recebi foi a mesma. Encarei como uma falha inadmissível na minha pessoa, no meu trabalho. Mais do que perfeccionista, sou extremamente exigente e curiosamente foi na maternidade, onde tenho falhado tanto (segundo os meus padrões, entenda-se), que mais tenho aprendido e aceitado a falhar como um meio para crescer.

    Obrigada mais uma vez pelos vossos textos. Parabéns pela liiv!

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