Há momentos em que sentimos que está na hora de ter mais. Um salário mais elevado, mais poder ou responsabilidade, mais benefícios. E, a não ser que trabalhemos numa empresa com uma gestão muito atenta, que antecipa as necessidades dos trabalhadores, quase sempre chegamos ao ponto em que temos de reclamar essa progressão.

Convenhamos que não é fácil, pelo menos não o é para a maioria de nós. Em primeiro lugar porque não se trata apenas de pedir. Trata-se de dizer, com todas as letras, que merecemos algo, que temos direito a mais, que somos/estamos melhores. E isso coloca-nos, naquele momento, numa posição de vulnerabilidade perante a chefia.

Não só porque estamos a partilhar o nosso olhar sobre nós mesmas, mas principalmente porque, ao fazê-lo, abrimos caminho para que nos digam o que pensam de nós e da nossa vontade. E nem sempre a resposta é a desejada.

Portanto, por mais habituada que esteja uma organização a avaliar os colaboradores, por mais que nós, enquanto trabalhadoras, sintamos que o ambiente não é hostil ao diálogo com a chefia, manifestar a vontade de passar para um novo cargo ou ter um ordenado mais chorudo é sempre um desafio muito revelador, tanto de nós mesmas, como dos que trabalham connosco.

 

Não nos ouvem ou não nos fazemos ouvir?

Já conheci várias pessoas queixosas da empresa onde trabalham, lamentando não serem aumentadas há alguns anos ou verem outros colegas serem promovidos, mesmo tendo entrado mais tarde na organização.

Num desses casos, perguntei a essa pessoa se, por acaso, já tinha dito à chefia que queria mais. Disse-me que não, que esperava que houvesse reconhecimento, pois tem sido “muito dedicada e profissional”. Mas o que significava isso? A  sua produtividade e o seu contributo para a empresa eram inegáveis? Novamente disse que sim, que era claro para todos, mesmo para os colegas.

Num mundo ideal, não seria preciso pedir para que a promoção acontecesse, sendo merecida, assente em resultados concretos e tangíveis. Mas, às vezes, chamar a atenção sobre nós mesmas é a única forma de, na correria dos dias, a chefia saber que não estamos satisfeitas.

Reclamar mais condições ou oportunidades, quando, inequivocamente, o merecemos e trabalhamos para isso, não é um abuso, um atrevimento, um excesso ou um capricho. É lutarmos por nós mesmas em pleno direito.

Ganhar balanço para fazer isso, de uma forma assertiva e positiva, é algo que não se aprende nos livros de gestão. É um trabalho interior de noção dos nossos pontos fortes e menos fortes, da nossa capacidade de ouvir críticas e evoluir com elas e até de lidar com a autoridade.

Para que a coisa corra bem, mesmo quando é resposta é negativa, é importante estarmos bem conscientes do valor que temos, daquilo que queremos, e do que estamos dispostas a fazer para o conseguir.

 

Quando a resposta é não

Mais uma vez, num mundo ideal, se cumpríssemos e excedêssemos todos os objectivos que nos são colocados, seríamos sempre promovidas e mais bem pagas. Mas sabemos que essa parte, apesar de ser crucial, é apenas uma das variáveis a ter em conta.

Nem sempre o contexto financeiro da empresa o permite, ou pode haver um colega que se destacou ainda mais, regras internacionais que impedem essa progressão ou então tratar-se de uma chefia que se está nas tintas para nós ou com quem não estamos alinhadas em termos de objectivos.

Por isso mesmo, quando a resposta é “não posso aumentar-te” ou “ainda não estás preparada” ou qualquer outra recusa, é fundamental entender porquê. Se sairmos da conversa com mais informação do que aquela com que entrámos, seja sobre nós ou sobre a empresa, já estamos a ganhar.

Por mais desconfortável que seja ouvir a explicação, é com ela que vamos poder tomar decisões: melhorar numa área que pensávamos não ser tão decisiva, estar mais atenta às variáveis externas que condicionam a empresa, fazer uma formação extra, aprender um novo idioma para entrar num mercado em crescimento ou, simplesmente, ir à procura de um novo emprego.

 

A proposta da concorrência que (não) resolve tudo

Há casos em que, cansadas de verem negada, durante anos, a sua progressão de carreira, as trabalhadoras só conseguiram melhorar a sua situação laboral quando anunciaram, oficialmente, estarem a ser assediadas pela concorrência, com condições superiores.

Em certos casos, a empresa superou financeiramente a proposta e elas ficaram; noutros, não. Na minha opinião, este último recurso é sempre um recurso, mas envolve alguns riscos.

Por um lado, sendo o dinheiro um factor muito relevante, ele não é o único (e uma empresa que nos deixou ir ao limite, depois de muitos pedidos, e só assim reage, está a revelar um mindset com o qual podemos não quer mais conviver).

Por outro, como as relações entre as pessoas são feitas de subtilezas, às vezes a dinâmica com a chefia sai um pouco melindrada depois desta abordagem ou-me-cobrem-a-proposta-ou-saio, por mais legítima que ela seja.

Portanto, antes de entrar na sala e pedir um aumento, faça a si mesma várias perguntas, recolha argumentos que justifiquem o seu pedido, prepare-se para ouvir qualquer resposta e estude as possíveis consequências.

Se mantiver o foco e olhar para todas estas etapas como possibilidades de crescimento pessoal e profissional, acredito que estará na posição de tomar as melhores decisões.

 

Fotografia: Istockphoto

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