Vamos lá fazer um teste: quem é que por aí gosta de ouvir umas boas verdades sobre si mesma? Pode levantar a mão! Alguém? Acho que estou a ver ali uma pessoa… Não, não. Pois, lá está… Gostar, gostar, arrisco dizer que ninguém gosta. Mas há momentos em que ter alguém que pare para olhar para nós e que, com alguma dose de coragem e generosidade nos diga o que vê, é o melhor que nos pode acontecer.

A verdade é que muito do tempo que passamos com as pessoas que nos são mais próximas, sejam familiares ou amigos, é um tempo de acção: organizamos jantares, marcamos almoços, dividimos uma boa garrafa de vinho ou um bolo com creme nos dias em que procuramos solidariedade no açúcar. Guardamos segredos, partilhamos alegrias e tristezas, somos ouvintes e oradores numa relação que acreditamos ser de confiança e de lealdade.

Mas diz-me a experiência são muito poucos os que nos vêem além do que é dito, feito e contado e a quem damos espaço e oportunidade para nos dizerem o que percebem em nós. Em primeiro lugar porque é preciso ter tempo. Tempo de convívio para ver e para se deixar ver. E depois porque nem sempre é fácil falar e é quase sempre desconfortável ouvir.

E isto nada tem que ver com o cliché das conversas francas, do sou-uma-pessoa-que-diz-o-que-pensa-e-tu-vais-ouvir-me, que apenas serve para validar uma pretensa sensação de superioridade e para despejar um saco que não tem nada sobre nós. Falo-vos de uma conversa que nasce de um lugar de amor e amizade, em que percebemos que a única forma de ajudar alguém que amamos é sermos completamente sinceras e interventivas, por mais que lhe doa e até que abane a relação.

 

Dizemos ou não dizemos?

Partindo do princípio que damos a atenção necessária àquela pessoa e que, genuinamente, queremos o melhor para ela, há que escolher: “Falo com ela, mesmo que possa zangar-se comigo? E se me estou a meter onde não sou chamada?” Ou então: “Será que se eu estivesse no lugar dela, gostaria que falassem comigo?”

Nem sempre estamos capazes de ver o mal que nos causamos a nós mesmas ou a quem está à nossa volta. Nem sempre percebemos que estamos a ficar doentes ou excessivamente cansadas. Nem sempre temos noção de que estamos a ser agressivas ou intolerantes, a minar pontes e relações. Se não for alguém que nos ama a fazer de espelho e a alertar-nos, quem o fará?

Por mais balanço que tenhamos de ganhar para essa conversa, por mais arriscada que ela possa ser, se ocupamos, na vida de alguém, um lugar de proximidade privilegiada, uma das formas de o honrar é exactamente pensarmos no bem dessa pessoa acima de todos os constrangimentos.

Há que ter sensibilidade para encontrar o dia e a hora certos; eles costumam aparecer quando os procuramos. E se conseguirmos depositar em cada palavra o amor que sentimos e evitarmos um tom acusatório, acredito que estamos a fazer o mais correcto, por mais que seja uma conversa difícil.

 

Mando-a calar ou ouço-a até ao fim?

Ora bem, se é complicado falar, não é mais fácil ouvir. E se, em teoria, há algum consenso em torno das vantagens de ter feedback, na prática, a coisa é menos espectacular.

Sentimo-nos expostas, observadas, criticadas. Alguém nos disse que “precisamos de falar” e desta vez são as nossas entranhas que estão em cima da mesa. Há um misto de constrangimento e desconforto. E há muitas maneiras de responder a isto.

Eu já interrompi conversas destas porque não estava em condições de ouvir. Já me insurgi, devolvendo um indicador apontado. Já ouvi calmamente até ao fim, engolindo em seco e deixando a ficha cair. Estas reacções dependem de muitos factores, a começar pelo nosso estado de espírito naquele momento até à importância pessoal do tema.

Mas a minha resposta a este tipo de intervenções tem vindo a ser, com o tempo, cada vez mais positiva, claro está, quando reconheço nelas autenticidade e clara intenção de ajudar. Não adoro a sensação – acho que nunca vou ser fã -, mas percebi a sua utilidade e valor.

Mesmo nas ocasiões em que a conversa correu mal – em que rejeitei os comentários e quase que me indignei -, olho para trás e vejo que dela retirei informação muito importante e que acabei por ter em conta ao tomar decisões e ao assumir comportamentos.

Hoje, regra geral, absorvo tudo com mais calma e apreço porque sei que esse olhar sobre mim, mesmo podendo não ser totalmente certeiro, é uma ajuda fundamental para que eu evolua como ser humano. E, pelos mesmos motivos, pratico-o mais em relação aos que amo e tenho por perto.

E vocês? Quem são as pessoas que vos alertam, doa o que doer? E qual foi a última vez que decidiram fazê-lo? Isso faz diferença nas vossas vidas?

Contem-me tudo 🙂

 

Fotografia: Istockphoto

4 Replies to ““Hoje, vamos falar sobre ti””

  1. Ui…ainda hoje estive a falar com uma colega de trabalho sobre como as relações andam tão superficiais que se torna quase impossível saber com quem se pode ter uma conversa destas. Ou será que nos dias que correm mais vale ouvir umas verdades de pessoas com quem não temos relações tão próximas? Beijinhos

    1. Olá Cláudia, acho que é mais difícil ouvir as tais verdades de pessoas não são próximas, exactamente pela falta de intimidade, que torna tudo mais natural e afectivo. Mas, quando vêm por bem, acho que são estas conversas que ajudam a construir as relações, a dar-lhes substância. E talvez esteja a ser ingénua, mas parece-me que ainda há muita gente a valorizar e a desejar algo assim. Um beijinho ❤️

  2. Este é um tema sensível. Estou totalmente de acordo que só numa situação de generosidade e verdadeira amizade/ carinho/ preocupação, devemos transpor as barreiras do desconforto e abordar frontalmente certo tipo de situações. Primeiro, porque nem todos nos merecem essa abertura, segundo, porque nem todos estão realmente receptivos a escutar e a não projectar-se em nós. Tenho tido muitos desafios nestes anos mais recentes no que respeita a relacionamentos; dou por mim a pensar que nunca tinha tido tantos, sinto agora que raramente sou a ‘pessoa popular e cool que todos gostam’. o que mudou? isto tem-me causado imensos conflitos internos e chego à conclusão que, creio, eu mudei. permiti durante anos que me dissessem ‘deves fazer isto, deves ser aquilo’ e que me fizessem sentir que a forma como era não estava correcta. tornei-me numa ‘agradadora de pessoas’ e não ganhei nada com isso a não ser dar agora de caras com essa verdade, a de que não sou nem nunca serei gostada ou aceite pelo consenso ou norma social. e comecei a ‘deixar cair’ muitas supostas relações de amizade. ter essa consciência é manifestamente um sinal de maturidade e de que me orgulho, sei agora melhor do que nunca quem são estas pessoas que me amam e reconhecem generosamente e aceito escutá-las, da mesma forma que me entrego às suas verdades. mas falta-me ainda passar ao plano emocional e não ficar triste ou sentir-me excluída quando me põem de lado porque, simplesmente, já não correspondo ao que esperam que seja. Não é fácil!
    A lealdade é algo que valorizo muito nos relacionamentos e, neste contexto, a única regra que tenho é uma: vou fazê-lo com generosidade? colocando-me nos pés do outro à semelhança do que é e não do que eu sou? então vamos a isso, sem demoras e no tempo certo (há sempre um tempo certo). e estou grata pelos que fazem o mesmo comigo.

    1. Olá Ana, obrigada por partilhar connosco a sua experiência tão pessoal. É difícil deixar cair, é difícil saber se estamos a ser demasiado influenciadas ou não, e também identificar a intenção com que as pessoas nos dizem o que pensam de nós. Vamos aprendendo com o tempo e com algumas surpresas, umas boas e outras nem por isso. Quanto ao que os outros esperam de nós: todos somos atingidos, apesar de o sermos em graus diferentes, pela opinião dos que nos rodeiam. E todos queremos sentir-nos aceites e amados. Mais uma vez, é uma gestão que temos de aprender a fazer, à nossa medida, num caminho que implica olharmos para dentro e percebermos o que nos faz feliz e nos traz equilíbrio. O que interessa é ir aprendendo todos os dias, e manter um saudável sentido crítico, sem exigirmos demasiado de nós. Um beijinho 🙂

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