Numa outra vida, trabalhei durante alguns anos numa empresa que fazia head hunting de executivos. Quase todos os dias participava em duas ou três entrevistas com vista a um processo de recrutamento específico, mas também de candidatos que, estando à procura de um novo desafio, tomavam a iniciativa de se darem a conhecer.

Entre muitas outras coisas, esta experiência serviu-me para perceber o quão desfasadas da realidade são as listas das “10 respostas perfeitas” ou de “como parecer confiante numa entrevista de emprego”.

E porquê? Por dois motivos: porque a autenticidade e a espontaneidade são sempre mais valorizadas e porque há, em todos os processos de recrutamento, um lado imprevisível que nunca poderemos controlar.

 

A teimosia, o perfeccionismo e outras tangas

Quando estamos a tentar deixar boa impressão e temos de falar de nós, há SEMPRE alguma dificuldade em pôr na mesa os nossos lados menos bonitos ou perfeitinhos, mesmo quando os conhecemos de cor e salteado.

“Então quais são as áreas em que tem de melhorar?” A esta pergunta ouvi, muitas e muitas vezes, uma de duas respostas: “sou muito teimosa” e “acho que sou demasiado perfeccionista”.

Ora bem, para os mais distraídos, estes dois defeitos são, na prática, duas qualidades, uma forma muito pouco subtil de dizer que se é determinado e rigoroso.

Confesso que, a certa altura, já me dava vontade de rir, e pedia uma resposta a sério. Algo que não fosse atirar-nos areia para os olhos. Havia quem a mantivesse e referisse mesmo que, além destas duas características, nada havia a apontar; outros felizmente deixavam cair a frase ensaiada e partilhavam a dificuldade em gerir o stress ou em falar em público.

O facto de o entrevistado ter consciência das suas áreas menos fortes e de as querer melhorar só nos passava confiança. Percebíamos que estava consciente de si mesmo, que não queria enganar ninguém, ou seja, era um sinal de maturidade e de segurança. Mais um ponto a favor.

 

Quando queremos muito aquele emprego

“Mas e se essa confissão nos eliminar do processo?”, poderão estar vocês a pensar. Se vos eliminar, ainda bem para todos. Se, para aquela função, for decisivo ser um orador experiente e nós detestarmos falar em público, o melhor é nem começar.

Claro que é fácil falar quando temos tempo e dinheiro para calmamente andar de entrevista em entrevista. A pressão de encontrar um trabalho empurra-nos para o tal discurso feito à medida, mas a verdade é que, a médio prazo, só nos prejudica.

Conseguir um emprego para, dois meses depois, perceber que não é o que queremos ou somos bons a fazer, de pouco vale e, de certo modo, também desgasta a nossa imagem junto da empresa e do mercado.

No entanto, se formos francos em relação ao que somos e queremos, deixamos geralmente uma boa impressão, alinhamos expectativas e podemos até ser surpreendidos.

Quantas vezes me aconteceu perceber que uma pessoa não era adequada para a posição a que se tinha candidatado, mas era a ideal para outra (que ela nem sequer imaginava que estava disponível)…

É melhor sermos honestos e parar de procurar a fórmula mágica. Não fazer perguntas forçadas só para parecer interessado ou vestir um fato clássico e salto agulha se, no dia a dia, seria insuportável tirar as calças de ganga e os ténis. Essas manobras podem até afastar-nos daquilo que tanto procuramos.

 

A empatia e outros milagres

Cheguei a acompanhar um caso em que a empresa considerava fundamental o candidato ter um MBA. Depois de muitas entrevistas, apresentámos três candidatos. Dois deles cumpriam escrupulosamente o perfil definido; um deles tinha tudo, menos um MBA. Como era um profissional experiente e tinha uma atitude que parecia ser bastante compatível com a cultura da empresa, fez parte da nossa short-list. Acabou por ser o escolhido, tal foi a empatia que criou com o empregador.

Às vezes, é mesmo assim. Vi muitos currículos perfeitos serem rejeitados, várias entrevistas sólidas não passarem à fase final. Há dias bons e menos bons, há empatia, há química entre as pessoas e os projectos, e esse factor nunca conseguimos realmente controlar.

O que nos resta? Continuar a tentar, a arriscar. Não deixar de enviar o CV apesar de não cumprir todos, mesmo todos, os requisitos (trata-se de um perfil ideal e não obrigatório). Entrar para uma entrevista sabendo que é importante, mas que a nossa vida não começa nem acaba em função do resultado. Assumir o nosso percurso, que nunca é limpinho e isento de turbulência (ainda bem).

O mais importante é mostrar a nossa melhor versão, desde que não seja uma versão forçada.

E vocês? O que acham? Qual tem sido a vossa experiência?

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