Na minha geração, muitos de nós tivemos contacto com a emigração. Na minha família, alguns partiram para França, outros para os Estados Unidos, todos em busca de uma vida melhor e, felizmente, encontraram-na. Mais estabilidade financeira, mais trabalho, a família a nascer e a crescer por lá, e mais saudade também, palavra que, desconfio, foi feita por quem teve de viver o seu país e as suas raízes na distância imposta por uma vida sem saída.

Com a melhoria da vida material perdia-se alguma riqueza de vida emocional. A educação dos filhos ocupava o pouco tempo fora do trabalho e os dias viviam-se a pensar no Verão, no “querido mês de Agosto”, na manhã em que se enchia o carro e se fazia 24 horas de caminho até Portugal. Ou se apanhava o avião em Newark no desejo de chegar à Portela.

Cresci nestas idas e vindas, nestas escolhas entre o que se quer e o que se tem de fazer, entre esta espera anual de quem está e de quem vem, de quem fica e de quem parte. Por isso, quando chegou a minha vez, estava preparada.

 

Lisboa-Paris-Londres

Emigrei duas vezes e de ambas apenas com bilhete de ida. Fui uma emigrante com outras cores porque não tinha uma família que dependia de mim para comer, embora tivesse um desejo enorme de vida que aqui em Portugal não via concretizada. Procurei primeiro em Paris e depois em Londres, aquilo que nunca veio a ter um nome mas fui encontrando amiúde: pessoas, muitas delas emigrantes portuguesas, como eu.

Aquilo que todos temos em comum é o desenraizamento. Por muito que tivesse adorado viver em ambas as cidades, ao fim de algum tempo, a geografia muda. Somos portugueses mas também passamos a ser do sítio onde estamos e esse sítio existe de forma diferente dentro de cada um de nós.

É uma finisterra interna, um país só nosso que é feito de pedaços da nossa história, de outros tantos da nossa família e das experiências que vamos vivendo.

Com o tempo, as saudades não atenuam mas ganham outras formas. A nova vida toma uma maior preponderância, os filhos crescem e formam também família, apaixonamo-nos por quem vem de outras paragens e misturamo-nos com o mundo.

Mas somos sempre portugueses, com este fado e esta sina comum, sobretudo, com este sentir dividido de quem está “lá fora a lutar pela vida” mas nunca deixou de viver cá dentro.

Às leitoras que nos seguem nos Estados Unidos, na Roménia, em Espanha, em França, no Luxemburgo, na Suíça, no Brasil, em Itália, nos Emirados Árabes Unidos, no Reino Unido, em Angola, na Bélgica, na Irlanda, na Alemanha, na Holanda, no México, e na Tailândia, recebam um abraço nosso, grande o suficiente que vos albergue a todas, sobretudo quando a saudade bate mais forte. 

 

Fotografia: Istockphoto

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