Num mundo que se mostra sempre tão ameaçador, a preocupação parece ser o estado natural de todos nós. Estar vivo implica correr riscos, sabemos disso, mas é um saber inconsciente. Se estivermos sempre a pensar nos carros na estrada, talvez seja difícil atravessá-la. E, no entanto, fazêmo-lo sem grande cogitação. É assim na maioria das coisas. Excepto quando o excesso de preocupação e ansiedade nos empurram para um estado de alerta constante e para perigos que, sendo possíveis, são muito pouco prováveis.

Na verdade, aquilo a que chamamos preocupação não é mais que um produto da ansiedade. É a mente a encontrar razões por onde ventilar a ansiedade e é isso que torna este padrão tão difícil de largar. Um “preocupador” legitima a sua preocupação.

Quem não se preocupa com os filhos? Com a segurança do posto de trabalho? Com o dinheiro para pagar as contas? A questão não está no tema da preocupação mas, sim, no modo como ela se manifesta e até que ponto ela contamina o dia a dia.

E não vale a pena dizer “não te preocupes com isso”. Um “preocupador” está convencido que, se não se preocupar, algo de errado pode acontecer, é uma crença que se alimenta a si mesma. A preocupação atua como uma rede contra perigos e tragédias e isso justifica a própria preocupação.

E, é claro, do mesmo modo que um relógio parado acerta sempre duas vezes por dia, um “preocupador”, de colocar tantos cenários possíveis, há-de, eventualmente, acertar e reforçar a necessidade de alerta, sem se dar conta do gasto desnecessário de energia e força vital.

Além disto, o “preocupador”, como ansioso que é, sente a preocupação constante como uma forma de controlo do ambiente externo. Ou seja, quanto mais se preocupar, menos mal lhe acontece a si ou aos mais próximos. É um mecanismo complicado de gerir, pesado para que o vive assim, igualmente perturbador para quem está perto.

No cerne de um”preocupador”, regra geral, está uma criança que viveu um contexto ou uma situação de tensão, stress, abuso. Não só ela chama para si, de modo inconsciente, a responsabilidade do que está a acontecer, como se torna hiper vigilante face aos momentos de caos familiar. Ela sabe que um berro, um acto violento, uma discussão pode acontecer a qualquer momento e fica atenta ao menor sinal disso mesmo.

Se há por aí leitores que vivem as questões da vida com demasiada preocupação, se sentem que isto vos pesa mais do que as situações exigem, peçam ajuda. Consultem um psicoterapeuta que vos apoie a pensar sobre a origem desse ansiedade e, em conjunto, encontrem um modo de lidar com ela.

De todo o modo, estamos por aqui também.

Fotografia: Istockphoto

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