Quando se fala em traição, a palavra remete-nos, regra geral, para contextos conjugais em que aparece uma terceira pessoa. Muitas vezes deixamos para segundo plano aquele que é um dos golpes mais duros que podemos sofrer: a traição de alguém que temos como cúmplice, confidente, amigo.

Há qualquer coisa de precioso na amizade, quando é verdadeira e construída. Como se fosse uma jóia rara que vamos trabalhando, à qual nos apegamos, um refúgio de emoções e memórias bonitas a que recorremos quando o mundo parece estar contra nós. Há na amizade sincera uma veia solidária e presente, uma igualdade e incondicionalidade que a poucas outras relações estão reservadas.

Por isso mesmo, quando um amigo ou amiga partilha as nossas confidências, usa o conhecimento que tem de nós para seu benefício próprio ou nos mente com toda a violência e intenção, há qualquer coisa que se parte e que raramente se recupera.

Há tristeza e muita mágoa. Há uma âncora que desaparece, ou melhor, que nós percebemos que realmente nunca lá esteve. Ficamos, na verdade, um pouco à deriva. O que é que nos escapou? Como pôde aquela pessoa aproveitar-se de nós desta maneira? Como é que eu confiei tanto nela?

Eu conheço bem a sensação, experimentei-a em dois momentos diferentes da minha vida, e sei bem como é devastadora. Perante a dureza dos factos, inegáveis, percebi também que tinha três opções: afastar-me completamente, manter a relação mas mudando a minha atitude, ou confrontar, pedindo explicações.

Optei pela primeira. Em silêncio, afastei-me sem discussões ou avisos. Não me restava uma única gota de esperança de estar errada, e também nunca tive talento para manter relações de fachada, principalmente com aqueles que amei. E sim, é de amor que falamos quando falamos de amizade.

 

Confiar, esconder ou fingir?

Se estas duas experiências me deixaram com medo de confiar? Sim, sem dúvida. Se me tornaram mais atenta ao evoluir das minhas amizades? Seguramente. Se deixei de acreditar nas pessoas e na capacidade que a amizade tem de trazer alegria e amparo às nossas vidas? Não, de todo.

A tentação é, muitas vezes, metermo-nos na concha com toda a nossa desconfiança ou embarcar numa atitude cínica que nos permite conviver com os outros, mas não nos liberta para relações autênticas e partilhadas.

O caminho do meio, digamos, é acreditar com prudência, gostar com provas dadas. Dar o benefício da dúvida a quem nos parece merecê-lo, apesar da mágoa que outra pessoa nos causou. É gerir o medo, caso a caso, tentando evitar que ele contamine demasiado as relações pessoais e a vida em sociedade.

Das amizades desfeitas pela traição, fica uma memória triste, mas de crescimento. De que confiámos demasiado em alguém que não merecia, mas que fizemos o que, na altura, nos pareceu a coisa certa.

Resta-nos cultivar a esperança, sabendo que não controlamos nada nem ninguém, e que há sempre margem para surpresas, nomeadamente para as desagradáveis. Mas é um risco que vale a pena.

Manter a porta encostada, pronta a ser aberta pelas pessoas fantásticas que existem neste mundo, é das melhores coisas que podemos fazer por nós.

 

Fotografia: Istockphoto

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