Nunca fui pessoa de fugir às emoções mais negativas. Tento sempre, claro, é natural fugirmos do que nos dói. Mas chego sempre ao momento em que percebo que não vale a pena, que, se me sinto triste, então tenho de sentir essa tristeza e perceber de onde vem. Também não mergulho muito tempo nela. Sei que tudo é temporário mas isso não me exime de sentir o que sinto, negativo ou positivo e de me responsabilizar pelas minhas próprias emoções.

Nestes dias em que me sinto mais para mim mesma e menos para os outros, há um conjunto de pequenos mimos que aprendi serem uma espécie de bálsamo, um consolo para corpo e alma. Coisas simples que me permitem reconhecer o que sinto, acolher pensamentos e sensações e seguir em frente, já mais leve.

Movimentar o corpo

Quando acordo mais melancólica, trato de despachar o exercício logo pela manhã. Nesse dia, evito o ginásio, faço uma caminhada e ouço música pelo caminho. Não estou focada em mais nada que não em mexer o corpo, movimentar-me, deixar que através dele possa também libertar a tensão e a tristeza com que acordei.

Banhar a alma

Dou-me mais tempo no duche, coloco a água a uma temperatura mais elevada e deixo-me ficar, até sentir os ombros e pescoço (onde acumulo tensão) a descontrair. Se tiver tempo, encho a banheira com água quente (péssimo para a pele e circulação mas óptimo para a alma) e faço umas respirações e uns minutos de meditação. Baixo o batimento cardíaco e sinto-me mais em paz.

Alimentar o espírito

Nesses dias não há regras. Embora tente não comer nada que afecte o meu estômago (que é sensível devido a uma gastrite crónica), opto pelas indulgências de açúcar, que são sempre as mais raras. Quero sentir-me nutrida, alimentada mas também mimada.

Registar emoções

Tenho a sorte de ler de ter uma profissão que me obriga a ler e a escrever muito. E por mais treino que tenha, nestes dias as leituras e a escrita são diferentes. Leio mais ficção e romance, escrevo coisas menos inteligíveis, mais palavras e frases soltas, qualquer coisa que transmita o meu estado emocional do momento. Não leio e escrevo de forma forçada, faço-o porque me dá serenidade e me ajuda a pensar.

Estar para os outros

Naturalmente, estou mais para mim e menos para os outros. Como dizia uma amiga sobre ela mesma, nos dias em que acordava mais taciturna, “hoje não estou para amar”. Custou-me a aprender a não estar para os outros nestes dias, a fazer apenas o estritamente necessário, a atender a quem trouxesse urgências e dores maiores. Mas, sempre que sinto que não tenho nada para dar, que estou esgotada e preciso de me calibrar e não desbaratar as reservas de energia, resguardo-me. E é o melhor de tudo o que posso fazer por mim.

 

Nem sempre consigo fazer tudo isto. Nos dias de trabalho é mais difícil de coordenar o estado de espírito com as responsabilidades. E quando assim é, faço o que posso. Não estamos cá para sofrer nem para sobreviver. Não podemos é esperar que sejam os outros, a vida e o pensamento mágico a dar-nos aquilo que não conseguimos ser nós a fazer. Esse é um trabalho nosso. Saber porque estou triste é um trabalho meu, saber viver com essa emoção é uma tarefa minha, e, por mais difícil que seja essa demanda, é sempre mais simples se cuidarmos de nós.

Cuidemos de nós.

Fotografia: Istockphoto

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