Há crenças e hábitos construídos ao longo da vida que são como que pequenas granadas interiores que fazem grandes estragos na nossa auto-estima e saúde mental. O body checking é uma delas. Em português, numa tradução livre, significa “escrutinar o corpo”, que é o modo como, compulsivamente ou não, monitorizamos a sua forma e peso.

O lado obstinado deste escrutínio pode levar a um adoecimento mental e ao desenvolvimento de distúrbios alimentares, como a anorexia ou a bulimia. Mas os hábitos não precisam de ser compulsivos para causarem dano. Eu que o diga.

Não há espelho, montra, superfície que devolva o meu reflexo em que eu não veja, detalhadamente, se a minha barriga aumentou.

É onde acumulo mais gordura e aquele de que menos gosto. Logo, não é de estranhar que seja sobre ela que despejo as minhas mais profundas frustrações com a auto-imagem, mesmo sabendo que não fazem sentido algum.

O problema não é o olhar em si, é o modo como eu e tantas outras mulheres que caem no mesmo padrão olhamos para este corpo que temos. É um constante julgamento, uma crítica, nunca está bem e, quando está, olhamos para ver se continua assim ou se já piorou. Vivemos enfaixadas num ideal de silhueta, focadas em atingi-la e a mantermo-nos lá.

Sempre que vou à casa de banho, levanto a camisola para perceber se a minha barriga, como por milagre, diminuiu. Aperto a camada adiposa abaixo do umbigo, avaliou se está maior, mais pequena. Depois vou aos braços, tento perceber se a gordura impede a tonificação muscular. Tudo isto e muito mais em piloto automático, de forma quase robótica, sobretudo em dias de maior ansiedade, num caminho de constante desapontamento.

Não há como ganhar ao body checking.

As razões pelas quase nos tornamos tão vigilantes são diferentes para cada uma de nós mas a ansiedade e a necessidade de controlo parecem estar no centro desta questão. Ganhámos peso? Perdemos peso? Quanto peso? Uma inspeção para perceber se emagrecemos ou parecemos mais magras. Um inferno…

Com terapia, tenho vindo a perceber que não sou o meu corpo, que ele não me define e que, se tudo muda, também ele vai mudar. Tenho aprendido a gostar de mim como sou e, sobretudo, a identificar os momentos em que o body checking mais ocorre. Se estou mais ansiosa, é quase certo que se ele se dará com mais frequência.

Mas, atenção: todas nós nos examinamos ao espelho. Não é esse o problema. Passa a sê-lo quando condicionamos a auto-imagem e o auto-conceito a quilos a mais e a menos, quando nos preocupamos em excesso como a imagem que temos ou quando desenvolvemos perturbações alimentares que levam a problemas bem mais graves.

Mais uma vez: olharmo-nos ao espelho, observar o nosso corpo, não são um problema. Mas fazê-lo de modo a reforçar ideias negativas sobre nós mesmas, conscientes e inconscientes, pode vir a sê-lo, em graus e formas diferentes. É uma armadilha, não caiamos (mais) nela.

 

2 Replies to “Body checking: quando o corpo é o inimigo”

    1. Olá, Marina, é difícil, sim, mas é possível estar atenta, encontrar as razões pelas quais caímos neste automatismo e tentar parar o piloto automático. Somos humanas, tentamos tomar as melhores decisões com as ferramentas que temos, no momento em que elas precisam de ser tomadas. Um dia de cada vez. Um beijinho e bem vinda.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *