Ao contrário do pensamento vigente, a minha vida tem-me mostrado, inúmeras vezes, que as mulheres podem, de facto, ser amigas. Tanto eu delas, como elas minhas. Terei sido cabra para elas? Talvez. Mas sou-o para homens também, não discrimino. O que sei, e isto é um facto, é que as pessoas que mais me magoaram na vida foram homens (nem sempre em contexto amoroso) e quem lá esteve sempre para me amparar e limpar as feridas foram as mulheres.

Num plano mais quotidiano, trabalho num ambiente exclusivamente feminino. As pessoas com quem estou em maior permanência são mulheres. Aprender a lidar com elas e com as relações que temos (eu e elas) faz-se ao mesmo ritmo que aprendo a lidar comigo mesma.

Quanto mais gosto de mim, mais gosto delas. Quanto mais me respeito, mais as respeito a elas.

Quanto mais entendo que o Feminino é um caldeirão onde cabemos todas, mais vontade tenho de lá estar também. Quanto mais percebo que há questões de género que nos assolam a todas, mais desejo que estejamos juntas a reivindicar direitos.

Agora, isto não significa que tenha de gostar ou aceitar tudo o que venha de mulheres, apenas porque são mulheres ou minhas amigas. Não sou menos feminista, feminina ou pessoa porque tenho dias em que me sinto mais quezilenta face às amigas e colegas que me rodeiam ou emito opiniões que as desagradam.

Ao contrário, é justamente porque tentamos cultivar relações sólidas que, por vezes, elas me permitem ser o que sou, estar quando estou.

Não sou a amiga do dia a dia, a quem se conta a espuma dos dias. Sou a quem todas telefonam quando têm uma emergência ou precisam de ajudas várias.

Damo-nos bem assim. Não há cobranças por jantares que não se fazem ou mensagens às quais não se respondem. Elas sabem que eu as amo, eu sei que elas me amam também. Não sou excêntrica, nem egoísta nem nenhum dos chavões que as revistas femininas (e não só!) insistem em propagar. Sou o que sou, elas são o que são e isso é tudo.

As relações, todas elas, não são simples. As pessoas, todas elas, não são simples. A vida não é simples. E quando vivemos de ideia feita em ideia feita, de cliché foleiro em cliché foleiro, ela torna-se pior.

Por isso, as mulheres podem, sim, ser amigas. Ser companheiras, próximas, carinhosas, fortes, acolhedoras, tanto quanto podem ser umas putas, maldosas, egoístas e chatas. E é de tudo isso e de tanto mais que as amizades se fazem, do colorido, do riso e da lágrima, do que se expande e contrai.

Ser mulher é, primeiro, ser pessoa, e, depois, parte de um universo que nos pertence, mesmo que não queiramos pertencer-lhe. Por isso, quando da próxima vez sentirem que “as mulheres não sabem ser amigas umas das outras”, saibam que há, pelo menos uma, que se recusa a estar nesse barco.

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