O país parou para ver A Rede, uma reportagem da SIC que contava como Nuno Ramos foi enganado por alguém que dizia ser Sofia Costa, com quem manteve uma relação virtual durante dois anos. À medida que a história, contada em três partes, foi sendo revelada, o choque aumentava. O detalhe, a manipulação, o modo insidioso como Sofia Costa criou uma teia à volta de Nuno, da sua mãe e de mais 5 pessoas, escrutinou-se na conversa pública.

Como foi possível enganar tanta gente, tanto tempo? O que queria esta mulher, que dizia ter cancro, que acabou por “morrer”dessa doença, que tinha uma mãe e uma irmã e vários amigos a corroborarem as suas várias histórias? O que pretendia com este enleio? E será que alguma vez quis desvendar que todas as pessoas que estavam na sua vida eram, afinal, apenas ela mesma?

Quando o mistério foi finalmente revelado, a voz pública foi rápida a colocar-se de fora. É provável que pela cabeça de muitos de nós tenha passado a ideia de que jamais cairíamos naquele engodo, que um esquema destes era facilmente desmontado.

Mas será mesmo assim? Quantas de nós cairiam? Nas condições certas, no momento certo, quantas de nós não seríamos Nuno Ramos? Eu, quase de certeza, seria.

Não por ser especialmente susceptível a este tipo de histórias mas, justamente, por já ter vivido momentos de maior fragilidade, mais depressivos, menos dados a conjeturas e grandes elaborações racionais.

Além disso, não vamos ignorar o facto de ser bastante mais fácil, no contexto certo de vontade e carência, apaixonarmo-nos por alguém online, mesmo que os contornos dessa relação sejam menos ortodoxos. Na vida virtual, podemos todos selectivamente escolher o que mostrar e, sobretudo, o que esconder. Como por exemplo, a identidade.

E tendo pouca informação sobre essa pessoa de interesse, basta uma vontade de saber mais e uma imaginação fértil para preencher com os atributos que desejamos os vazios criados por uma comunicação deficitária, por ausência de contacto pessoal.

Começa quase sempre do mesmo modo: uma história triste, uma necessidade urgente, uma ligação que cria, a intimidade que chega pouco depois. Isto, sempre online, sem nunca (ou raramente) se verem, ou sem saberem qual o real aspecto de quem está do outro lado.

A intensidade e a rapidez com que se chega a uma evolução romântica faz com que certas questões óbvias não sejam colocadas. Aquela pessoa está sempre “lá”, está sempre tão presente que é como se, de facto, existisse do modo como diz ser.

Está lá para o desabafo triste, para a alegria, para a troca de impressões, pensamentos e desejos sobre a vida que, pouco depois, começa a ser planeada em comum. Sempre, sem nunca terem estado verdadeiramente juntos.

 

“Nunca cairia nisso!”

Imagino que muitas das pessoas que caem digam o mesmo. Monica Whitty, professora da Universidade de Leicester, em Inglaterra, concluiu que, nesse país, as vítimas são maioritariamente mulheres, com educação média ou superior, entre os 35 e os 54 anos, e têm, sobretudo, estas 3 características em comum:

Impulsividade: criar um sentido de urgência é um dos modos que os criminosos têm de colocar pressão sobre as suas vítimas e, assim, manipulá-las a seu favor, seja para extorquir dinheiro ou perpetuar uma relação assente em falsos pressupostos, como a de Nuno Ramos. Quanto mais impulsiva for a vítima, melhor e mais rapidamente responderá aos seus pedidos, por ter menos tempo para pensar no pedido que lhe fazem.

Capacidade de confiar: quanto mais marcada for esta característica, mais fácil se torna o engano. É um misto de confiança com ingenuidade e ignorância, um cocktail explosivo de vulnerabilidade a este tipo de pessoas.

Personalidade aditiva: quem tem laivos, muitos ou poucos, desta característica pode correr o risco de ficar “viciado” no próprio esquema, mesmo depois de saber que era um esquema. É um funcionamento mental similar ao de um jogador, que está constantemente a percepcionar uma quase-vitória a cada jogada. No caso destas vítimas, há algo mais forte, de um domínio mais patológico, que as faz continuar enroladas na rede, mesmo depois de se descobrir a sua natureza.

Independentemente das características de personalidade, que fragilidade guardam estas pessoas, que as tornam vítimas de histórias tão chocantes com consequências emocionalmente tão devastadoras? Quão carente estaria Nuno Ramos para viver à distância e no escuro, um sentimento e uma relação com alguém que nunca viu?

No contexto certo, com as condições criadas, acredito que todos podemos ser vítimas de um crime destes, especialmente insidioso por incidir no desamparo, na falta, no amor que não tivemos e que aparece, de repente, como que por magia.

Mesmo que não tenhamos os traços de personalidade que o estudo apontou, estejamos atentos. O virar da esquina não poupa ninguém.

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