Aqui na Liiv gostamos muito de conversar e de aprender a escutar diferentes experiências e perspectivas. Esta é a primeira de muitas conversas que queremos partilhar convosco, porque aquilo que ouvimos nos tocou de um modo especial.

Com Paulo Duarte, padre jesuíta e professor do Colégio das Caldinhas, falámos de liberdade, vergonha, tempo e equilíbrio. Falámos do que as pessoas procuram e precisam numa época em que se vive a correr e em que as prioridades parecem invertidas. É dele, a palavra, a partir daqui.

 

Sem julgamentos

As pessoas têm necessidade de falar em total liberdade, de sentirem que quem as vai ouvir não as vai julgar. Precisam de desabafar e, muitas vezes, vêm carregadas de culpa em relação ao que sentem.

Muitas vezes, sentem-se mal por se estarem a queixar de algo que a mãe ou o marido lhes disse. Mas a verdade é que aquela palavra lhes causou, objectivamente, dor. E é a partir daí que se pode começar a trabalhar, sabendo que a irritação ou a zanga nada tem que ver com falta de amor.

É muito importante sermos autênticos, tomarmos consciência, livre de julgamentos, do que fizemos e sentimos, da nossa história de vida. Sem acharmos que estamos a ser ridículos, livres de medos e outras capas que só nos oprimem.

 

O tempo e a falta dele

Precisamos de tempo, as famílias precisam de tempo. Hoje em dia, com tantos estímulos diários, as pessoas chegam a casa muito cansadas e sem paciência. E depois, as crianças (que não são adultos em miniatura, são crianças) fazem birras porque os pais não estão com energia para lhes dar atenção.

Compensam-nas com jogos e presentes e outras distracções, mas o que elas querem mesmo é atenção, colo, relação. E isto leva-me a outro ponto, à tal diferença entre o ter e o ser.

Se estivermos muito preocupados em ter a casa com aquela decoração e em assegurar que os nossos filhos são aceites pelos colegas comprando-lhes isto e aquilo, acabamos por dedicar grande parte do nosso tempo a esta procura pelo ter. E isso tira-nos o foco da importância do ser, do afecto, da relação com o outro.

Não há como isto não nos deixar cansados, exaustos. É claro que precisamos de dinheiro para comer, para comprar diversas coisas, mas se isso for o grande objectivo da nossa vida, entraremos em desequilíbrio.

 

O que o corpo sabe (e não esconde)

Nós temos uma sabedoria orgânica brutal. Se nos sentimos cansados, em défice, é porque seguramente fizemos um esforço e precisamos de repouso, de algo que nos reequilibre. E isto sem culpa, sem rótulos.

Eclesiastes dizia que “tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. E a Bíblia é clara quanto à ideia de que é prazeroso para Deus ver-nos relaxar, comer e usufruir do resultado do nosso trabalho.

Mas, muitas vezes, faz-se uma leitura moralizadora deste descanso, carregando-o com julgamentos. O equilíbrio é a pedra-chave e, para chegar a ele, sabermos escutar o nosso corpo, as pistas que ele nos dá, é muito importante.

 

Onde fica a espiritualidade?

Na quotidiano, no dia a dia. É um engano pensar de outro modo. A espiritualidade impregna a nossa vida diária, contamina todos os outros momentos, reflecte-se depois no que fazemos, na nossa relação com o mundo.

Do mesmo modo que usamos a energia do que comemos ao almoço para trabalhar durante a tarde, também o que ganhamos com o silêncio, a oração, a meditação, a respiração ou um reflexão mais profunda, se estende aos nossos actos contíguos.

A espiritualidade acontece na vida como um todo, implica um tempo próprio, mas vivê-la conduz-nos ao tal equilíbrio que, no fundo, é a pedra-chave de tudo.

 

Fotografia: Marta José / Dreamaker

9 Replies to “10 minutos com… Padre Paulo Duarte”

  1. Haverá melhor presente que viver o presente de forma presente❤️🙏, em caminho, em verdade, em vida. Grata 🙏❤️ Pela inspiração destas belas e sempre sabias palavras do padre Paulo Duarte 🤩

  2. Relação/relações de modo justo e adequado ❤ devolvendo à Vida Unidade, Coesão e Coerência. Obrigada pelo reforço e focado do acolher sem culpas, sem julgamento e no mais profundo respeito pelo Eu.🙏❤

  3. Palavras simples, reflexão profunda sobre o que já sabíamos mas não fazemos ,porque necessitamos que nos ajudem a recordar para melhor vivermos.
    Obrigada padre Paulo Duarte

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