Cena do filme “When Harry Met Sally”:

Sally: “A maior parte das mulheres, em algum momento da sua vida, já fingiu um orgasmo.”

Harry: “Comigo nunca fingiram.”

Sally: “Como é que sabes?”

Harry: “Sabendo.”

Sally: “Ah, claro, sabes porque és homem…Todos os homens têm a certeza que as mulheres nunca fingiram um orgasmo com eles mas a maioria delas já fingiu um orgasmo na vida…agora faz as contas.”

A questão que hoje quero colocar não é se todas, muitas ou poucas mulheres alguma vez fingiram um orgasmo. A questão é por que razão isso acontece. Porque é que, conscientemente, escolhemos a ilusão de um clímax que não existiu, a uma verdade que não traz consequências? Ou será que traz?

Pensando no tema, só me ocorrem duas razões primordiais para fingirmos orgasmos. E são estas:

Não querer magoar o parceiro: para entender esta questão, há que lembrar as convenções sexuais da sexualidade masculina e feminina. O homem dá prazer, a mulher recebe prazer; ou seja, o homem dá orgasmos, a mulher recebe orgasmos, estando a sexualidade assente na performance masculina e no orgasmo como alvo único de uma relação sexual.

Enquanto esta ideia se solidifica, outras duas tomam lugar: numa relação a dois, é homem é o claro expert sexual, logo, e de forma intuitiva e quase inconsciente, cabe à mulher reforçar esse papel. Portanto, está fora de questão dizer-lhe que não, que naquele dia, daquele modo e por razões várias ou nenhuma, um orgasmo não aconteceu.

Isto significa que, mais do que não estar em contacto consigo mesma e com a sua sexualidade, ao não comunicar e fingir, infantiliza o acto e priva o homem de informação que ele também deve ter, para bem de ambos. Pior: ao fazê-lo em permanência, priva-se a si mesma de um contexto sexual mais condizente com o seu desejo e, em pouco tempo, a insatisfação e frustração instalam-se e dão lugar à zanga e ausência de libido.

Querer acabar com a relação sexual rapidamente: mais uma vez, estamos tão condicionadas a não comunicar sexualmente, que mesmo quando estamos cansadas, fartas ou desconfortáveis durante o sexo, preferimos fingir um orgasmo, a terminar a sessão sexual. Quando as mulheres não sentem que falar é uma opção, usam a opção que lhes parece mais adequada. Neste caso, um orgasmo fingido.

De novo, há qualquer coisa de tabu e de regressivo neste modo de encarar a sexualidade, a qual tem um guião datado, pouco informado e empobrecido; que é aquele que, não apenas determina o orgasmo como objetivo único de uma relação sexual, como mantém um ideia fajuta de que há alguém que dá e alguém que recebe, sem complementariedade ou confluência.

Se há reduto em que a comunicação é fundamental é este, o sexual. Pode não ser uma comunicação verbal, as palavras podem não ser um meio de expressão, mas é importante que a falta de vontade e de desejo fiquem claras, tanto quanto a sua existência. Fingir o que quer que seja neste domínio, concorre para uma sexualidade exaurida, esgotada e para o consequente desencontro que a acompanha.

Experimentem falar com o vosso parceiro, dizerem que não têm vontade, que gostariam que fosse diferente. Experimentem sair a meio de uma relação sexual, digam que “não está a resultar naquele momento”. Resguardem-se e respeitem-se.

Fotografia: Istockphoto

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