A ideia romântica, e errada, de que o parceiro tem de adivinhar e antecipar todas as nossas necessidades, traz consequências difíceis de gerir. Se juntarmos a isso o facto de, em Portugal, os homens estarem ainda pouco habituados a fazer a parte que lhes compete na gestão doméstica e familiar, não admira que, tal como referido no estudo publicado na semana passada, as mulheres andem estouradas.

E pode dizer-se o que se entender sobre os parceiros que, insistentemente, se demitem do que é suposto fazer. Que são infantis, que não são educados para isso, egoístas que não querem saber de nada a não ser deles, que colocam o trabalho à frente da família mas, o que me salta à vista, sem ignorar as razões da queixa, é algo mais profundo: os parceiros não fazem porque alguém há-de fazer por eles.

Não contribuem em casa e na educação dos filhos porque há mulheres e mães que lá estão para que nada falte. Há sempre uma mão que lava a outra. E, assim sendo, onde fica a nossa capacidade de colocar limites? Quando é que este trabalho de equipa se tornou num one woman show?

Em vez de nos queixarmos e fixarmos no que o parceiro pode fazer mas não faz, talvez seja mais útil pensarmos na linha que é importante traçar entre as necessidades de um, do outro e as da família.

  • Antes de mais nada, antes de se sentarem a falar com o parceiro, pensem no que é mais importante dizer. Que mudanças são necessárias operar para que o quotidiano caseiro seja menos pesado e a carga distribuída de forma mais paritária? Pensar, acalmar, agir. Assim, por esta ordem.
  • Sejam claras nas vossas intenções e não extremem posições. Dividam responsabilidades e, calmamente, mostrem-lhes que há um lugar para ele que não está a ser preenchido. Evitem discussões, micro agressões e sarcasmo. Lembrem-se que, se a situação é a que é, isso também se deve ao facto de não terem colocado limites mais cedo. Estas conversas não são fáceis mas há um compromisso mútuo que é fundamental ser assumido.
  • Se já comunicaram calmamente o que querem, se os vossos limites e desejos estão claramente estabelecidos, se se sentem desvalorizadas e desrespeitadas por um parceiro que se recusa a estar na relação com aquilo que ela precisa, é tempo de sentar e pensar: que faço aqui?

Estes temas não são fáceis, estas conversas também não. O dia-a-dia consome-nos e, muitas vezes, arrasta-nos para atitudes que degradam ainda mais o ambiente familiar e, por consequência, a relação. Há sempre tempo para baralhar e voltar a dar, para delimitar situações e renovar limites.

Não temos sempre de querer as mesmas coisas, da mesma forma. É a vida que nos segue, não somos nós que seguimos a vida. Mas cabe-nos desenhá-la e alterá-la, sempre que ela se mostrar diferente do que queremos ou temos capacidade para aguentar.

 

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