Se é uma daquelas mulheres que chora para dentro porque “tem 40 anos” e ainda não encontrou o amor, limpe as lágrimas, sente-se confortável e prepare-se para o embate. Isto é para si.

Em primeiro lugar, o que precisa de saber é que, independentemente da sua condição marital, não há nada de errado consigo. Por muito bom que seja sermos parte de uma relação onde existe amor, nem ele sozinho é garante de felicidade, nem nós somos definidas por estarmos ou não em relação.

Ainda assim, seria desonesto da minha parte não reconhecer o bom que é sentirmo-nos amadas e apreciadas pela pessoa que amamos e apreciamos. É maravilhoso. Mas as relações, sobretudo a longo prazo, são muito mais do que o afecto que nos une a alguém. E o que as sustenta é tanto o amor que une as duas pessoas, quanto o amor próprio que sustém cada uma delas individualmente.

Por isso, pergunto: como anda o amor que sente por si mesma? Em quantas relações amargas já embarcou, na esperança de se sentir amada? Quantas vezes já se envolveu de forma menos precavida, como paliativo de dores maiores? De que modo a vontade de ter um futuro em relação lhe ofusca a capacidade de aproveitar o presente como solteira? No fundo, o que é para si estar solteira? Esta é a pergunta do milhão de dólares.

Ser solteira pode ser aquela pessoa que vai sempre sozinha aos jantares de amigos, a quem a família já deixou de perguntar “quando casas?”, a que acha que o amor é coisa que só acontece aos outros, que o mundo pula e avança e a sua vida continua igual, a que conhece os Tinders da vida mas já está farta de dates e encontros e só quer que a amem pelo que é, e se queixa que “não há homens decentes”, que “ninguém se quer comprometer” e que, no fundo, “querem todos a mesma coisa”.

Mas ser solteira também pode ser aquela pessoa que sabe que a vida não revolve à volta de uma relação, apesar de estar disponível para ela, que não está sempre a marcar encontros para encher o vazio do seu dia a dia, que vive confortável com a sua condição, apesar dos dias em que ela lhe pesa mais, a que flirta sabendo que aquela pessoa não é para si mas o flirt também sabe bem, a que aproveita o tempo que tem para aprender coisas novas, para reforçar a sua curiosidade e independência e cuidar de si, como mulher e pessoa ligada à vida.

Não depende só de nós encontramos alguém para amar e que nos ame de volte. Se o nosso foco for esse, a vida empobrece, torna-se curta e pequena demais para o tanto que podemos fazer com ela. Façamos por nós, o resto virá. E enquanto andamos ocupadas a talhar o nosso lugar no mundo, talvez apareça alguém que queira fazer parte dele. Mas, se não aparecer, esse lugar é nosso e esse amor por nós mesmas já ninguém nos tira.

Fotografia: Istockphoto

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