Eu ainda sou do tempo em que as laranjas se comiam no Inverno e os morangos no Verão. Aliás, cresci numa altura em que a mudança das estações eram, entre outras coisas, sinal de que a mesa traria novos alimentos e levaria outros. Mas isso era antes. Agora, temos tudo, a toda a hora, porque nos tornámos gananciosos e perdemos a capacidade de esperar que a natureza siga o seu curso, tome o seu tempo e nos ofereça o que tem para oferecer, naturalmente.

Além desta pouca capacidade para esperar, tomamos más decisões no que toca à comida com que nos alimentamos e alimentamos a nossa família.

Preferimos pagar 2 tostões por alimentos refrigerados, que viajaram encaixotados durante dias, vindos do lado de lá do mundo já estafados e moídos, do que 2 euros pelos mesmos alimentos cultivados cá, por agricultores portugueses, que no mesmo dia podem vir da terra ao nosso prato.

É claro que são mais caros. E são-no porque demoraram o tempo necessário a crescer (sem químicos), porque a oferta, além de depender da estação, depende da generosidade da mesma – uma tempestade dá cabo de uma colheita – e porque as pessoas que trabalham na terra não têm de ser exploradas no seu trabalho porque nós não entendemos nem aceitamos que as coisas têm um preço, um valor e que todos temos de ganhar a vida.

Podemos, naturalmente, escolher fruta que dura 1 mês na fruteira. Mas dá-me mais confiança a que, ao fim de três dias, dá sinal de madura. Diz-me que é natural, porque é assim que a natureza funciona.

Parece que nos esquecemos das aulas de Biologia. O ciclo económico, e os vícios economicistas, suplantaram a evidência do ciclo da vida dos alimentos e, em última análise, também do nosso. Podendo escolher, preferimos mau mas barato, que bom e mais caro. Por isso, e porque não queremos que vos falte informação para poderem tomar melhores decisões, aqui ficam “os da estação”, num artigo muito bem compilado e explicado pela Deco.

É claro que optar pelo que é da estação não significa que não possamos experimentar outras coisas. A maravilha de viver num mundo globalizado também passa por termos a possibilidade de experimentar iguarias de outros países. O problema existe porque aquilo que é uma prerrogativa passou a ser um hábito.

Para percebermos isto mais claramente, da próxima vez que formos ao supermercado, basta reparar na proveniência do que colocamos no carro de compras. Talvez vejamos que o mapa mundo que eles formam está intimamente ligado à nossa necessidade de abundância, sacrificando sabor, nutrientes, ambiente e pequenas indústrias locais de cultivo e venda.

E depois espantamo-nos que os miúdos não queiram comer “os verdes” e a fruta. Pudera! Parece que estão a mastigar papel de jornal, não sabem a nada! Por isso, na próxima oportunidade que tivermos, pensemos um pouco nas escolhas que fazemos. É certo que há razões a pesar, se calhar não podemos correr a lista de compras a produtos orgânicos mas façamos o melhor que pudermos. Consumamos produtos do mundo, claro, mas os frescos, os que foram cultivados localmente, na medida do que nos for possível, escolhamo-los.

O mundo, o nosso corpo e a nossa família, agradecem.

 

 

2 Replies to “Razões para escolher biológico (que não têm só a ver com a saúde)”

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