Não sei como é convosco, mas certos alimentos fazem-me viajar pela memória, trazem-me recordações de velhas rotinas de infância, saudades de quem já não está e a vontade de que tudo se pudesse repetir, nem que fosse por uma vez.

A comida não serve apenas o propósito de nos suster o corpo; muita serve o intento de nutrir o espírito, sobretudo quando o seu consumo está ligado a pedaços nossos e a mosaicos emocionais que vão muito além do alimento.

Por isso, quando surgiu o convite para aprender a fazer um Pastel de Nata na Pastelaria Batalha, nem hesitei. Por momentos, tive 8 anos outra vez e consegui sentir o cheiro da leitaria onde todos os dias lanchava com a minha mãe depois do colégio, e do pastel de nata que o Sr. Pombo, dono da leitaria, me oferecia, a contragosto dela, que dizia sempre “depois não jantas em condições”.

Quando o bolo chegava à mesa, eu pegava na colher do café da minha mãe, ainda doce de ter mexido o açúcar, e, pausadamente, comia o recheio. No final, dobrava a massa, crocante, que desaparecia em duas dentadas. Momentos felizes de infância que recordo sempre, mas sempre, que como um destes bolos.

 

Da leitaria para o Chiado

Ao chegar à Pastelaria Batalha, fomos recebidos pelo Chef João Batalha, terceira geração de pasteleiros e padeiros e dono de uma casa que leva o seu nome de família. A sua receita está a concurso este ano no Melhor Pastel de Nata, evento inserido no Peixe em Lisboa, o maior festival gastronómico de Lisboa, e foi com base nela que nos ensinou a fazer um dos bolos mais emblemáticas da nossa portugalidade.

Com menos 30% de açúcar que os restantes, mantém o sabor e a textura e, mais importante, tem a capacidade de convocar a minha memória de infância. Só não comi o pastel à colher porque tive vergonha mas, naquele momento, voltei a ser criança outra vez. Obrigada, Chef João. Pela Liiv, o seu pastel de nata já ganhou.

PS. vão até ao nosso Instagram porque temos um workshop para oferecer a duas pessoas que queiram aprender a fazer pastéis de nata. É uma experiência muito simpática e o Chef João, além de excelente no seu métier, é um comunicador nato. Aprendem e ainda fazem um amigo. 🙂

Fotografia: Istockphoto

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