Estou longe de ter experimentado todos os planos alimentares, que se tornam moda ano após ano, mas já segui alguns. E com eles aprendi uma lição importante: no que toca à perda de peso, o problema não são as dietas. Umas são mais saudáveis do que outras, mas se cumpridas a rigor, todas nos fazem emagrecer.

O problema é que, quando procuramos uma dieta, focamo-nos nos resultados imediatos. Queremos caber naquele vestido, usar aquele biquíni espectacular, colher os elogios das amigas ou mostrar ao ex-marido o que ele perdeu. E quem nos impede esse sonho de auto-confiança? A comida, a desgraçada da comida.

Partimos para a dieta contra a comida, e até conseguimos perder peso porque nos privámos muito dela. Mas, findo o regime alimentar e já mais confortáveis com a balança, percebemos que o nosso suposto adversário continua lá: senta-se todos os dias à mesa connosco, aparece nos supermercados, nos cafés, no local de trabalho.

E como podemos ganhar esta luta de uma vez por todas, se a comida nos tenta todos os dias? Geralmente, não conseguimos, cometemos os excessos típicos de quem anda em privação e as calças voltam a ficar apertadas.

Porque a solução não é óbvia, pedimos à nutricionista Iara Rodrigues que nos ajudasse a entender por que razão é tão complicado manter o peso desejado.

 

O que a comida esconde

“A maioria das pessoas chega à minha consulta a ver a comida como um inimigo, como algo a evitar e que as está a impedir de emagrecer. Alterar essa percepção é essencial se queremos que alguém consiga perder peso e mantê-lo para a vida.”

“Quando há oscilações e a sensação de que não se consegue controlar o peso, geralmente o problema está naquilo que nos leva até à comida. Pode ser a ansiedade que surge ao final do dia, ou a tristeza que marca fases mais complicadas. Sem termos consciência disso, vamos comendo emoções, procurando compensações no frigorífico”.

Portanto, descobrir o nosso ponto fraco (que não é o pastel de nata, mas sim o motivo que nos leva a comer quatro pastéis de nata) é fundamental para que todo o processo de emagrecimento e manutenção de peso tenha realmente pernas para andar.

E se os motivos que nos levam a comer em demasia são mais intrincados e profundos, o melhor é procurar, antes de mais, uma forma de os entender. Conversar com um psicoterapeuta pode ter mais efeitos (indirectos) no nosso peso e na nossa imagem corporal do que duas semanas a comer quinoa.

 

A dieta é um início, não um fim

Um plano alimentar, para ser sustentável no tempo, tem de ser visto como uma aprendizagem, como um curso sobre o que é bom e menos bom para o nosso corpo. “Encarar a dieta como uma primeira etapa de um processo mais amplo é essencial. Pode ser mais restritiva no início, depois incluir mais alimentos, mas só funciona a longo prazo se implicar uma mudança estrutural no estilo de vida.” Por isso, o ideal é respeite, desde logo, o perfil de quem vai segui-la.

“Cada nutricionista tem uma abordagem própria, mas eu prefiro não ter um método fechado. Há quem precise de várias opções para cada refeição, outros preferem uma tabela fixa com o que comer. E há pessoas com quem negoceio o plano, respondendo ao que são as suas preferências e hábitos, o que até é bom, porque implica um compromisso, um envolvimento real, exequível, naquele plano”.

O mesmo se passa em relação ao exercício, cujo valor para a perda de peso e para a saúde é consensual. De pouco vale fazer três meses intensivos de crossfit para emagrecer se não gostamos realmente daquilo. Se calhar a nossa onda é mais a dança ou a caminhada, é o que nos dá prazer, e é com isso que temos de trabalhar com o nutricionista. Isto se queremos realmente controlar o peso, leia-se, não voltar a fazer dietas restritivas.

 

A saciedade e a asneira

Para que, no tempo, a balança não nos volte a surpreender, é importante aprender alguns truques do plano alimentar que estamos a seguir. E esse conhecimento, se for adequado ao nosso perfil e se houver um genuíno compromisso com a nossa saúde, pode ser ouro.

Saber quais são os snacks que nos deixam mais saciados e, dentro desse grupo, os que nos dão mais prazer e saúde, é uma informação valiosa. Outra será aprender a planear as refeições caseiras para levar para o trabalho, que nos afasta de soluções apressadas menos saudáveis e, talvez, mais calóricas. Se calhar não conseguimos fazer meal prep todos os dias, mas se fizermos alguns já não é nada mau.

Muito se fala também do “dia da asneira”, daquela refeição all-you-can-eat, exclusiva de um dia da semana, como forma de compensar os apetites. Confesso que comigo nunca funcionou, porque o meu desejo por doces é rebelde e hormonal, não espera por sexta-feira. Neste ponto, a Iara Rodrigues fala também de uma forma subtil de perpetuar a associação entre comida e pecado.

“Só o facto de se dizer asneira me parece errado. É carregar a comida com mais culpa e proibição. O melhor é não haver dias de asneira, mas sim momentos em que comemos alimentos que, não sendo tão saudáveis, nos dão prazer. O que faz diferença na manutenção do peso é haver uma reeducação alimentar, de relação com a comida e com um certo estilo de vida. Tudo pode ser permitido, na medida certa. Não passa por viver uma semana em privação à espera do dia da asneira.”

 

Quem não gostava de uma fórmula mágica?

Eu gostava, acho que toda a gente gostava. Mas a experiência vai-nos mostrando que elas não existem. Se uma fórmula rígida e impessoal já não é um bom indicador de sucesso de uma dieta de perda de peso, muito menos o será para a manutenção.

Também em relação ao peso, informação é poder. Seja sobre o que nos dói, o que nos empurra para a caixa de bolachas, o que nos dá prazer, aquilo de que não queremos abdicar ou o que o nosso corpo pede em função da idade, das hormonas e de tantos outros factores.

Só assim a magia dura.

🙂

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