É uma doença difícil de diagnosticar, com sintomas que se confundem com as meras dores menstruais e em torno da qual há muito desconhecimento. Confesso-vos que já tinha tentado percebê-la e foi só hoje, com a ajuda de André Casado, médico internista e intensivista, que entendi melhor os contornos da endometriose.

Foi uma meia hora de perguntas e respostas que partilho convosco porque, antes de mais, percebi que há muitas mulheres que vivem anos sem saber que sofrem de endometriose. Entre outras razões, isto acontece porque toleram demasiado níveis elevados de dor, assumindo serem os normais durante o período menstrual. Mas vamos detalhar, ponto por ponto, as questões essenciais.

 

O que é a endometriose?

É uma doença caracterizada pela existência de tecido endometrial fora do útero. Geralmente aparece na cavidade abdominal. Podemos encontrar estes tumores benignos feitos de endométrio nos ovários, nas trompas, na bexiga, nos intestinos, nas membranas que cobrem os órgãos abdominais, na região entre a bexiga e o útero e entre o útero e o recto, na vagina. Também podem aparecer noutras partes do corpo, no diafragma ou nos brônquios, por exemplo, mas é muito mais raro.

 

Então, o que é que acontece?

O tecido endometrial é bastante reactivo às hormonas, nomeadamente às sexuais, sendo essa reactividade necessária quando ele está apenas no útero, para que tudo decorra com normalidade. Mas, mesmo quando está fora do útero, o tecido endometrial varia as suas características durante as diferentes fases do ciclo menstrual, gerando-se assim zonas de inflamação que podem provocar dor e hemorragias.

 

Quais são os sintomas?

Apesar de poder ser assintomática, a endometriose está na origem de dores bastante intensas nos locais onde esse tecido endometrial se “espalhou” (geralmente dores pélvicas e abdominais). Essa dor tende a agravar-se nos dias antes, durante e imediatamente depois da menstruação.

É importante referir que estas dores não são dores ligeiras, as ditas moínhas, o desconforto típico de quem está com o período. Estamos a falar de dores intensas, que chegam a ser incapacitantes. Esse tipo de dor, cuja sensibilidade varia de pessoa para pessoa, deve sempre ser reportada ao médico, algo que muitas mulheres não fazem por acharem que faz parte da sua condição feminina.

Esse silêncio faz com que, frequentemente, a endometriose comece a ser investigada e diagnosticada muitos anos depois dos primeiros sintomas, e não raro quando a mulher vai ao ginecologista devido à dificuldade em engravidar, outro sintoma da endometriose.

 

Como é que pode ser diagnosticada?

Além da análise do historial clínico da mulher, é feita uma análise aos sintomas que, combinados e com determinadas características, apontam para uma probabilidade mais ou menos elevada de sofrer de endometriose. São feitos também exames não invasivos, como a ecografia pélvica e a ressonância magnética pélvica, de preferência por imagiologistas experientes (é que não é mesmo nada fácil perceber de que tipo de tecido se trata).

Em casos que o exijam, é feita uma laparoscopia, ou seja, uma exploração cirúrgica da cavidade abdominal, em que é feita uma biópsia ao tecido supostamente endometrial que, devidamente analisado, irá confirmar ou não o diagnóstico.

 

Em que idade é mais frequente sofrer de endometriose?

Entre os 25 e os 35 anos, exactamente porque é a fase hormonalmente mais intensa. Porém, os sintomas podem aparecer desde logo com a primeira menstruação, ou surgir já na fase da menopausa.

 

É uma doença hereditária?

Não necessariamente. Ser filha de uma mãe com endometriose não quer dizer que, apenas por esse facto, se vá sofrer da doença. Pode, claro, haver fatores hereditários envolvidos, mas também há os fatores genéticos e ainda questões mais “mecânicas”, como haver um refluxo, ou seja, uma passagem de células endometriais do útero para a cavidade abdominal. E, mesmo havendo essa passagem, não é obrigatório que se venha a ter endometriose. As diferentes variáveis que têm de ser vistas caso a caso.

 

Como é que se trata?

A endometriose exige um olhar muito cuidado, não só a nível do diagnóstico, mas também da terapêutica, de modo a promover a qualidade de vida da mulher e os seus eventuais planos de engravidar.

No caso de não querer ter filhos, a pílula contraceptiva é a resposta mais frequente, pois garante uma estabilidade a nível hormonal e, logo, do endométrio, esteja ele onde estiver. Pode ser tomada continuamente, sem interrupções mensais. São também prescritos analgésicos para o controlo da dor, que varia, como já se disse, com as fases do ciclo menstrual.

Em certos casos, quando estes tumores benignos crescem muito e invadem, por exemplo, a parede do recto ou da bexiga, criando muitos outros problemas, a cirurgia é considerada. Ou então quando estes tumores não dão garantias de se manterem benignos para sempre.

 

Por que razão a endometriose está associada à infertilidade?

Por dois motivos: primeiro porque muitos desses tumores benignos criam obstruções, bloqueios e disfunções nos órgãos reprodutores. Ou seja, impedem que o óvulo seja fecundado ou se implante no local devido. Em segundo lugar, porque esse tecido endometrial que se encontra fora do útero, além de ser sensível às hormonas, produz também hormonas, além das sexuais, que inibem o processo de fertilização e a consequente gravidez. Se quiserem perceber um pouco melhor a dinâmica geral das hormonas, podem ler este texto.

 

O que acontece se uma mulher com endometriose engravidar?

Tem de ser acompanhada com especial atenção. Se por um lado, até pode conseguir estabilizar alguns sintomas devido ao novo quadro hormonal, por outro, a existência de tecido endometrial fora do útero pode perturbar, através das tais hormonas que produz, a comunicação entre o cérebro e os órgãos reprodutores.

Está exposta a um maior risco de um parto pré-termo, de um descolamento de placenta, de dores mais intensas, e merece cuidados mais apertados.

Portanto, nunca é de mais lembrar: vá regularmente ao ginecologista ou fale com o seu médico de família, principalmente se sente dores fortes. Vivemos num país onde existem alguns dos mais conceituados médicos, nomeadamente especialistas em endometriose.

Cuidarmos da nossa saúde é uma das nossas missões mais importantes, que temos de encarar com responsabilidade, pelo amor que nos temos a nós e aos que amamos.

Fotografia: Istockphoto

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