Há muito que sabemos que o coração não é a fonte das nossas emoções. Mas a ciência tem-nos mostrado, cada vez mais, que existe uma relação forte entre as emoções que vivemos e o funcionamento do órgão que sempre será associado ao amor.

É hoje assumido pela comunidade científica que, por exemplo, o medo, ao provocar em nós alterações na corrente sanguínea, nos batimentos cardíacos e na tensão arterial, pode causar danos graves no coração. E existe mesmo uma condição cardíaca, descoberta por cientistas japoneses, chamada Cardiomiopatia Takotsubo ou Síndrome do Coração Partido, em que este sofre um enfraquecimento agudo em momentos de grande stress ou dor emocional.

Sandeep Jauhar, cardiologista e autor do bestseller Heart: a History, explica que “isto pode acontecer na sequência de uma separação ou da morte de um cônjuge. Os pacientes, na sua maioria mulheres (por razões pouco claras), desenvolvem sintomas semelhantes aos de um ataque cardíaco.”

Ao fazer um ecocardiograma, consegue perceber-se que o músculo cardíaco alterou ligeiramente a sua forma, ficando mais semelhante a um pote japonês que tem a base larga e o topo mais estreito, chamado takotsubo. E se é verdade que esta condição pode ser ultrapassada em poucas semanas, também é verdade que, na fase mais aguda, pode provocar falência cardíaca, arritmias potencialmente fatais e até a morte.

 

Cuidar do coração passa também por cuidar da mente

Há muitos estudos que sugerem a importância desta relação mente/coração. Um deles, por exemplo, mostra que pacientes que ficaram deprimidos após um ataque cardíaco enfrentam uma maior probabilidade de morrer do que os não deprimidos, independentemente de outros factores como o colesterol elevado ou a hipertensão.

Mas, convenhamos, o facto de os pacientes estudados estarem deprimidos pode ter levado a uma má alimentação, pouco exercício, uso de substâncias nocivas e, deste modo, serem essas de facto as causas dos problemas cardíacos. Mas Jauhar defende que “seria irresponsável ignorar esta ligação, quando tantos estudos a demonstram e existem mecanismos que explicam essa associação”.

“Ao analisar um paciente, a disfunção emocional ou a saúde conjugal devem ser considerados factores de risco de doenças cardíacas.”

Um outro estudo, citado pelo The New York Times, mostra que os médicos dão, em média, 11 segundos aos pacientes para explicarem o motivo que os levou à consulta antes de os interromper pela primeira vez. Se assim é, como se consegue passar do valor da glicémia ou da tensão a questão mais íntimas e emocionais?

“Hoje dou mais tempo para que me falem de si mesmos, do que os preocupa e assim posso entender melhor as suas emoções. Crio uma relação mais forte com os meus pacientes e com os medos que guardam no coração“. Dr. Jauhar dixit.

A saúde é mesmo uma só, venha a dor da alma ou do peito. Tenhamos consciência disso e cuidemos de nós, sem esquecer a forma como vivemos o que nos acontece.

Fotografia: Istockphoto

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *