Há fases que são muito pesadas, em que é difícil encontrar forças para continuar, dia após dia. Não temos ânimo e falta-nos confiança para enfrentar o futuro. Estamos tristes. Mas como podemos acusar tristeza e vulnerabilidade num mundo que nos pede felicidade, sucesso, produtividade? Sentimo-nos um bicho estranho que não está capaz de ser tão alegre como deveria.

E se um comprimido resolvesse tudo isto? É o que aquela nossa amiga toma e parece ter operado milagres. Prozac, não é?

Daí a começar a tomar, sem aval de um médico, é só um passo. E, apesar de não haver números concretos sobre a auto-medicação – provavelmente porque acontece em segredo -, a Direcção-Geral de Saúde mostra-se preocupada. Sem acompanhamento médico, o consumo de psicofármacos (como antidepressivos, ansiolíticos e indutores de sono) pode ter consequências bastante perigosas.

É certo e sabido que Portugal ocupa um lugar cimeiro no consumo destes medicamentos. Mas, quer por falta de informação, quer por facilidade de acesso, muitas pessoas fazem um uso desregrado que pode vir a revelar-se inútil ou devastador.

Por isso mesmo, queremos aqui lançar alguma luz sobre este tema. Prozac, Xanax, Victan, Lexotan e Valium parecem a mesma coisa, mas não o são. E o seu consumo leva-nos a destinos diferentes. Pedimos ajuda a André Casado, médico internista e intensivista, para nos guiar nesta conversa.

 

Antidepressivos: só em toma contínua e orientada

O Prozac é um dos mais populares antidepressivos que, como o nome indica, é adequado para casos de depressão. E estar “meio deprimido ou em baixo” não é a mesma coisa do que padecer da doença mais incapacitante em todo o mundo.

Se o diagnóstico de depressão for confirmado por um médico, caberá a este indicar o melhor antidepressivo, que deve ser tomado todos os dias, num período a determinar caso a caso, sempre com orientação.

“Os antidepressivos não têm resultados imediatos ao nível do humor. Estes só aparecem três semanas depois de uma toma diária, sendo que, durante essas semanas, tem de se ir fazendo um ajuste da dosagem, que varia de pessoa para pessoa”. No imediato, “a toma de um antidepressivo pode gerar sonolência, boca seca, visão turva”. Em alguns casos, “depende do antidepressivo, até consegue aumentar os níveis de energia, mas, se a pessoa sofrer de ansiedade, pode ser contraproducente”.

Daqui se deduz que tomar um comprimido nos dias em que a tristeza aperta, ou começar a tomar todos os dias sem orientação médica, é completamente desaconselhado.

Não esperemos que os antidepressivos sejam rebuçados de felicidade imediata, porque não é assim que funcionam. E nunca é demais lembrar que, se o caso é de depressão, a combinação medicamentos + psicoterapia é a ideal para combater a doença.

 

Ansiolíticos: evitar a dependência silenciosa

O consumo de ansiolíticos, de onde se destaca o grupo das benzodiazepinas (Xanax, Valium, Lexotan), tem um perfil de consumo que dá azo a muitos excessos. Ao contrário dos antidepressivos, os ansiolíticos devem ser tomados em SOS. Mas o conceito de “momento em que é mesmo necessário” pode ser muito subjectivo.

Os ansiolíticos existem para atenuar um pico de ansiedade ou quando antevemos um momento em que ela vai disparar. Mas como é difícil resistir à sensação de alívio que proporcionam, a toma torna-se mais frequente e instala-se uma dependência. Subtil, discreta e funcional, mas uma dependência.

Por mais que consigam, em pouco tempo, aliviar a carga pesada que carregamos, os ansiolíticos não podem ser encarados com ligeireza: o risco de adição é elevado e vários estudos mostram que a utilização continuada por longos anos (não é tão rara assim) pode estar na origem de demências.

Para que fique claro, tanto os ansiolíticos como os indutores de sono actuam nos mesmos sectores cerebrais, mas comportam-se de modos distintos. “Podem ser mais hipnóticos ou mais controladores da ansiedade. É importante saber quais são os mais indicados caso a caso”. Mais uma vez, o precioso conselho médico.

“Quem toma um indutor de sono em SOS para ajudar a adormecer pode ter a tentação de o tomar num momento de maior ansiedade apenas para se acalmar. O resultado não será o esperado e, além da sonolência excessiva e défice de concentração, estamos no mau caminho para a dependência (física e psicológica). ”

 

Parar de repente? Nunca

Estejamos ou não a ter acompanhamento médico, a tomar antidepressivos, ansiolíticos ou indutores de sono continuadamente, NUNCA devemos interromper o consumo de um momento para o outro.

Fazer um desmame gradual e orientado é uma etapa determinante para a nossa saúde mental. Bem sei que pode ser uma tentação, mas o resultado pode ser devastador. “Desde hipertensão, taquicardia, até confusão mental e surtos psicóticos, muita coisa pode acontecer”.

E, já agora, lembremo-nos que cuidar de nós e da nossa saúde mental pode passar pela medicação, mas não tem de passar por ela, em todos os casos. Cultivar o estar em silêncio, desligar do mundo lá fora, seja para meditar, rezar ou simplesmente relaxar, tem efeitos muito benéficos. Ou então fazer exercício, para esquecer o dia péssimo que tivemos, e pôr o corpo a produzir endorfinas.

Ou, mais uma vez, fazer psicoterapia, que infelizmente ainda está tão carregada de preconceitos. Não gera resultados instantâneos, exige compromisso e dedicação, mas ajuda a conhecermo-nos e a gerir com mais habilidade as nossas emoções.

 

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