Quando, em 2002, comecei a tomar pílula, as regras eram claras: um comprimido por dia, se possível à mesma hora, durante os 21 dias disponíveis no blister. Depois, sete dias de interrupção, com toda a maçada de ter o período.

Mas sabe-se agora que esta pausa de sete dias, reflectida até na organização que as farmacêuticas dão aos comprimidos, não tem qualquer base científica. Apenas uma razão histórica e religiosa. Passo a explicar…

 

A pílula e o Vaticano

Há uns 60 anos, quando a pílula foi inventada, o ginecologista John Rock quis convencer o Vaticano a concordar com este método contraceptivo. E pensou que, se a mulher mantivesse sinais visíveis de um ciclo menstrual natural, talvez o Papa estivesse mais receptivo a aceitá-lo.

Por isso, Rock sugeriu que a toma fosse interrompida durante sete dias, provocando assim uma hemorragia, supondo que a ocorrência mensal de menstruação fizesse a Igreja Católica olhar a pílula com outros olhos.

Mas, como se sabe, isso não aconteceu. Ficou apenas a regra. A Igreja perdeu um dedicado praticante (John Rock, com a recusa do Papa em acolher a pílula, afastou-se do Catolicismo) e, nós, mulheres, ficámos presas a um modus operandi sem origem científica.

 

Então não faz mal tomar a pílula sem parar?

Pelos vistos, não só não faz mal, como é a forma mais segura de a tomar, se o objectivo é reduzir as hipóteses de uma gravidez indesejada. Ao jornal The Independent, vários especialistas do serviço nacional de saúde britânico garantiram que “a toma ininterrupta ou a redução da interrupção para quatro dias” aumenta a eficácia da pílula contraceptiva.

Enfim, cai assim um mito que atravessou gerações e, convenhamos, condicionou a vida de muitas mulheres. Não havendo um real benefício na pausa de sete dias, não faz sentido que, durante décadas, tenhamos tido hemorragias mensais apenas para agradar à Santa Sé.

Haverá seguramente mais do que uma explicação para justificar a longevidade do mito. Mas, creio eu, parte dela será a falta de conhecimento sobre o nosso corpo, nomeadamente dos órgãos reprodutores, e o tabu em fazer perguntas sobre eles.

Começando, desde logo, por saber exactamente qual é a acção da pílula.

 

Ovulação interrompida

Ao tomarmos a pílula estamos, basicamente, a impedir a ovulação. Apesar de haver pílulas sem estrogénio (como a que é dada a mulheres ainda a amamentar), a maioria delas tem esta hormona ou uma combinação de hormonas cuja magia é impedir que o ovário liberte óvulos. E, se não há libertação de um óvulo, não é possível que o mesmo seja fecundado pelos espermatozóides. Tão simples quanto isto.

Daí que, entre muitos outros fatores e de várias ordens, a pílula seja apontada como um dos inimigos da líbido das mulheres. Ao impedir as oscilações hormonais mensais que conduzem à libertação do óvulo, a pílula neutraliza também o impacto positivo destas oscilações no desejo.

Quando, ao 21º dia de pílula, paramos de a tomar, permitimos que útero comece a descamar. Apesar dos nossos esforços em impedir a gravidez, ele lá se foi preparando, apenas um bocadinho, para a receber. Não havendo fecundação, dá-se a libertação dessas camadas da parede interna do útero que, juntamente com sangue e outras substâncias, designamos por menstruação, mas que, na verdade, é uma hemorragia de privação.

 

Tomar ou não tomar a pílula, eis a questão

A decisão de tomar a pílula ou qualquer outro método contraceptivo deve ser tomada mediante aconselhamento médico.

Não só porque cada corpo pode reagir de formas diferentes ao mesmo método, mas porque cada pessoa, ao longo do tempo, pode ter reacções e necessidades distintas. A maternidade, a amamentação, a perimenopausa ou a toma regular de um certo medicamento são apenas quatro fatores que podem condicionar a escolha.

Importante é sempre conhecer os prós e contras e todas as opções disponíveis que permitam, não só evitar uma gravidez, como proteger das doenças sexualmente transmissíveis. No site Contraceção, podem encontrar informação clara e útil, tanto para vocês como para as vossas filhas e filhos.

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