Alguma coisa não está a funcionar bem quando passamos a medir o tempo em dores de corpo e desconfortos vários. De repente, percebemos que passaram mais de 20 anos desde a última vez que nos mexemos com o propósito de fazer exercício, e que as caminhadas que damos na praia durante as férias não são suficientes para compensar a negligência do resto do ano.

Quando não é o desconforto do corpo, são os incómodos da vida. Uma separação, um divórcio na meia idade, um espelho que devolve um reflexo que não agrada e que precisa de estar bem para a nova fase de vida, e volta a ideia do exercício.

Nada contra os motivos que nos levam a mexer o corpo e a movimentá-lo com sentido. Desde que não queiramos condensar os erros passados em novas virtudes, ou seja, desde que não queiramos fazer tudo de uma vez.

Nos últimos tempos, morreram 4 pessoas amigas de amigos meus, todas de ataque cardíaco, todas a praticar desporto. Não sei se havia uma condição pré-existente, não faço ideia do que estará na sua origem, mas, em conversa com alguém que faz do exercício a sua vida, questionei-me: o que fazer para evitar isto? E fui falar com quem sabe.

Bruno Brito, responsável técnico pelo Life Center, um espaço de actividade física que se assume como mais que um ginásio, fala-nos da sua experiência, não apenas como alguém que conhece os atletas que treinam no seu espaço, mas também como personal trainer.

 

O que leva as pessoas a “acordarem” de repente para o exercício?

“O peso da idade começa a fazer-se sentir e as pessoas sentem que está na altura de tomar decisões, mudanças. Em muitos casos, os filhos já estão criados, já se atingiu um patamar profissional que permite olhar para a vida com outra perspectiva. Quando terminaram as suas formações, dedicaram a vida à carreira, havia um percurso profissional e familiar a ser feito e, a partir dos 40 anos, percebem que há um desajuste. Além disso, esta é a idade em que, normalmente, começam as disfunções e as patologias associadas à vida sedentária.”

E o que faz uma grande parte dessas pessoas?

“Começam a pensar como se estivessem nos 20 anos. Só que, além da ausência de exercício, normalmente há também há uma alimentação desregrada, privação de sono, e, muitas vezes, excessivo consumo de álcool e tabaco, e até drogas. Entretanto, passaram 20 anos sem se mexerem, aumentaram de peso, não têm um cuidado cardiovascular, não apenas pela falta de exercício mas pelo stress da própria vida, e aos 40 anos acham que o corpo está apto a fazer o que faziam aos 20.”

Tendo tudo isto em conta, o que fazer para dar mais saúde a um corpo que envelhece, no modo e medida certos?

“O mais importante é ser consciente. A partir do momento em que se toma a decisão de incluir o exercício como parte da vida, o que aconselho é a procurar primeiro um cardiologista, para que se faça a bateria de exames e testes que tem de fazer. E depois, estando apto para a prática do exercício, procurar um nutricionista, não para uma dieta, porque isso é um período que se encerra nele próprio, mas para uma mudança efectiva de estilo alimentar. E depois, sim, com um profissional de exercício, definir um plano e um objectivo.”

 

Se estão nesta faixa etária e perceberam que o vosso corpo está a gritar por ajuda, ainda vão muito a tempo de tratar dele. E isso implica que façam despistes de saúde, para perceberem se está tudo bem, se podem fazer exercício, qual o tipo de exercício mais adequado ao vosso contexto e qual a melhor forma de avançar.

Demasiado de uma coisa boa pode ser uma coisa má. Ou seja, exercício desregrado, acima do que o corpo aguenta e sem nenhum tipo de orientação, pode ser grave e, até, trágico.

Cuidem de vós. Tratar do corpo é uma questão de saúde, acima e antes de qualquer coisa.

Fotografia: Istockphoto

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