Tive a minha primeira enxaqueca aos 30 anos. Até esse dia, tinha a audácia de dizer às pessoas que delas sofriam que também eu tinha dores de cabeça de vez em quando. Pensava eu que estava a ser solidária, mas estava a apenas a revelar um total desconhecimento face ao que é, realmente, uma enxaqueca e quão incapacitante ela pode ser.

Esse meu primeiro episódio, há quase dez anos, inicialmente assustou-me. E porquê? Porque a dor intensa, as náuseas e a total intolerância ao som e à luz foram precedidas de… aura. Não fosse ser o prenúncio de uma tortura, até poderia parecer algo mágico. Mas não.

A aura, no meu caso, correspondeu a uma alteração da visão: comecei a ver brilhos e luzes do lado direito, o que, para mim, era já, no mínimo, caso de um aneurisma pronto a rebentar. Felizmente, deu-se a sorte de estar num hospital. Mas não na situação mais adequada.

Estava na sala de espera do pediatra da minha filha, na altura com seis meses. Quando o médico, com uma hora de atraso nos chamou à consulta, eu já tinha lentamente escorregado por uma das paredes, com as mãos na cabeça, e tentar simular algumas fracções de segundo de silêncio, enquanto o meu marido embalava a criança.

Vendo o meu estado, o pediatra apressou a consulta, mas recordo-me bem do enjoo que senti só de o ouvir falar das primeiras sopas. Mal lhe conseguia responder e comecei a chorar. Ele, que por acaso sofria também de enxaquecas, decidiu tratar da mãe além do bebé, e praticamente enfiou-me um comprimido debaixo da língua que se dissolveu em segundos.

O caminho para casa, de carro, no trânsito da Segunda Circular, no calor de Agosto, foi um pesadelo. As dores e o desconforto eram de tal forma violentos que eu quis sair do carro, por não tolerar o pára-arranca. Felizmente não me deixaram sair; a coisa podia ter corrido manifestamente pior.

Cheguei a casa e fiquei num quarto escuro durante horas e horas. A dada altura, adormeci. Quando acordei era noite e eu estava atordoada. Com a cabeça dorida, principalmente de um lado, como se realmente tivesse levado uma pancada.

Esse misto de ressaca e dor prolongou-se por dois dias. Era complicado ler e escrever, fazer qualquer tarefa que implicasse muita concentração ou detalhe.

 

A tempestade perfeita

Alguns meses depois tive outra enxaqueca com aura e acabei na sala de um oftalmologista e de um neurologista. Despistados outros cenários mais dramáticos, o diagnóstico confirmou-se. Desde essa altura, tive, creio eu, uma enxaqueca por ano. Pelo que me foi dito, é uma cadência aceitável para quem tem aura.

Mas, no último mês, tive seis. Seis! É o equivalente, no mundo da enxaqueca, a ser um saco de boxe. Voltei ao neurologista, desta vez à Dra. Raquel Gil Gouveia, no Hospital da Luz, com quem tentei perceber as razões que levaram a esta sucessão de enxaquecas.

Este tipo de curto-circuito de ondas cerebrais (vá, médicos que me lêem, não me matem por esta simplificação) pode acontecer por vários factores. Os meus, deduzimos, são as poucas horas de sono, as muitas horas de computador e alguma ansiedade à mistura.

Mas cada pessoa tem a sua tempestade perfeita, aquela que acciona um ou mais episódios. Saí de lá com medicação ajustada em SOS e consciente de que isto só se regula com um misto de medicação e alterações no meu estilo de vida.

 

Menos Dr. Google e mais medicina real

Se se revêem nestas descrições, sabendo que há enxaqueca com e sem aura e, dentro destas, algumas variações (até descritas por grandes nomes da literatura), devem procurar a ajuda de um médico que possa diagnosticar-vos com segurança. A dor pode ser aliviada ou preventivamente controlada e podemos também, tomando conta de nós no dia-a-dia, evitar que as enxaquecas apareçam com muita regularidade.

De qualquer modo, deixo-vos aqui alguns sintomas que, segundo a Mayo Clinic, devem conduzir-nos de imediato ao hospital. Por estarem habituadas a dores muito severas e incapacitantes, as pessoas que sofrem de enxaquecas tendem a relativizar sintomas como:

  • Dor de cabeça abrupta e severa, como um trovão
  • Dor de cabeça acompanhada de febre, rigidez do pescoço, confusão mental convulsões, visão dupla, dormência ou problemas de fala
  • Dor de cabeça na sequência de uma pancada, especialmente se a dor aumentar
  • Dor de cabeça crónica que piora quando se tosse ou se faz um movimento brusco
  • Um novo tipo de dor de cabeça se tem mais de 50 anos

Se experimentar qualquer um destes cenários, o melhor é ir logo para as urgências.

Há por aí pessoas que sofram, como eu, de enxaquecas? Como é a vossa experiência? I feel your pain, sisters 🙂

 

Fotografia: Istockphoto

One Reply to “Enxaqueca: não, não é uma “dor de cabeça””

  1. Ui, apanhei um senhor susto no ano passado. História familiar de aneurisma cerebral, eu tenho um aneurisma cerebral controlado… E num belo dia uma dor de cabeça de morrer (bem…todos os sintomas que descreve, na verdade). Saude24, ida para o hospital, dores, dores, dores…de repente, vomitei este mundo e o outro ( calma, wc do hospital e limpei tudo depois). Parou! Quando falei ao médico, dias mais tarde, disse-me que tinha sido uma “simples” enxaqueca. É altamente incapacitante, e tem tantos gatilhos, que se torna difícil 1. Ser levada a sério quando se descreve ao médico e 2. Conseguir identificar todos os gatilhos… Obrigada pela sugestão do hospital da luz!

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