Massagens, smoothies, limpezas, dietas, tudo detox. Sou, assumidamente, uma pessoa que se deixa levar, com relativa facilidade, pela promessa de um corpo mais limpo, mais saudável e mais magro. E resulta? Claro que não. Por muito que a palavra detox esteja presente no nosso vocabulário, associada a saúde e perda de peso, a verdade é que, do ponto de vista médico, ela não existe.

Detoxing, a noção de que podemos livrar o nosso corpo de toxinas e impurezas e deixá-lo perfeitamente limpo, não tem uma base científica que a sustente.

Há uns dias tropecei num artigo do The Guardian, no qual Edzard Ernst, professor emérito na Universidade de Exeter, explicava que “se o nosso corpo acumulasse toxinas sem as expelir, provavelmente estaríamos mortos ou a necessitar de uma intervenção médica urgente. Um corpo saudável tem os rins, fígado, pele e pulmões que desintoxicam naturalmente.”

Para lá dos milhares de produtos que prometem o que raramente cumprem, existem as dietas detox, também elas pouco (ou quase nada) sustentadas cientificamente quanto à sua eficácia. Ainda assim, juro-vos que me sentia melhor depois dos vários regimes que fiz, numa sensação assente num misto de “resultados rápidos” com “expectativa de um novo desafio.”

Mas, não havendo uma base científica, por que razão as dietas detox parecem resultar? Katherine Zeratsky, da Mayo Clinic, afirma ao mesmo jornal que, regra geral, “ao eliminarem por completo quaisquer alimentos processados e ricos em açúcar, é normal que ao fim de poucos dias as pessoas se sintam melhor.” Pronto, e depois de ler isto, chorei uma lágrima interior a pensar no tempo e dinheiro que gastei em produtos vários e promessas vãs.

Se perdi peso? Sim, enquanto andei a beber sumos à bruta. Estava menos inchada? Claro, não comia pão ou produtos com farinha. As várias massagens que fiz para limpar este ou aquele canto do organismo, resultaram? Nem um pouco.

Mas fui, durante muito tempo (hoje em dia menos, mas o “bicho” continua cá) altamente susceptível a TUDO o que prometia resultados rápidos. Depois de muitas expectativas goradas, e depois de me informar melhor sobre o tema, há uma coisa que me parece básica: não vale a pena substituirmo-nos às ferramentas que o corpo naturalmente tem. Como referi logo no início, rins, fígado, pele, pulmões, mais vale estarmos atentos a eles, certificarmo-nos que funcionam em pleno para que possam, justamente, fazer aquilo que nos apressarmos a ir buscar a outro lado: desintoxicar.

E para que não me esqueça do acabei de escrever, e, sobretudo, para que vocês possam tomar as vossas decisões, fui compilar estas ideias com a ajuda do Berkley Wellness, da Universidade de Berkely, e da Harvard Medical School, da Universidade de Harvard:

O que significa detox? Vem de “detoxification”, desintoxicação, em português, usado quase exclusivamente em contextos clínicos para tratamento de pessoas com problemas com álcool e drogas.

Hoje em dia, em que sentido é utilizada? As dietas e produtos detox prometem eliminar as toxinas do corpo, sendo que as dietas prometem ainda a eliminação de quilos extra, justamente por essa eliminação de toxinas

O que são as toxinas que prometem eliminar? Regra geral, são substâncias criadas por plantas, animais e microrganismos perigosos para seres humanos. Alguma medicação, quando usada em grande quantidade, também pode ser tóxica.

Mas as dietas detox eliminam de facto estas toxinas? A maioria dos planos detox apontam o açúcar, cafeína, carne vermelha, álcool, glúten e algumas partículas do ar, como toxinas; bem como justificam doenças como obesidade, algumas condições de pele, vários tipos de cancro, inchaço, insónia, dores nas articulações e congestão nasal crónica à existência de toxinas no corpo. Não há nenhuma evidência científica que sustente estas afirmações.

As dietas detox resultam sempre em perda de peso? Quando se tem um regime bastante restritivo, como nas dietas detox, a probabilidade de ser perder um quilo ou outro é elevada. Basta deixar de comer açúcar e alimentos processados que a balança dá sinal. Porém, esse é um resultado que não tem como se manter no tempo, já que o que se perde não é, de facto, gordura mas maioritariamente água e algum glicogénio (glicose usada como reserva energética). Por isso, assim que voltar a comer os alimentos que retirou, o corpo repõe os níveis de água e glicogénio perdidos e o peso voltará a subir.

As dietas detox são perigosas? Potencialmente, sim, sobretudo se forem demasiado restritivas. Por exemplo, as que eliminam nutrientes fundamentais, como a proteína (que pode levar à desnutrição); uma dieta de sumos verdes que se prolongue por demasiado tempo, que pode originar um desequilíbrio do sódio e do potássio; limpeza do cólon (não apenas desnecessária como até perigosa, a não ser em preparação para uma cirurgia), pode levar a diarreias, septicémias ou perfurações do intestino.

Devemos beber sempre acima dos dois litros de água? Não. Se bebermos mais água do que a necessária para nos mantermos hidratados – e a quantidade deve ser definida pelo médico dependendo do contexto de cada pessoa – corremos o risco de prejudicar o normal funcionamento dos rins. Desde que a urina seja de um tom amarelo claro e não tenhamos demasiada sede, em princípio (e, mais uma vez, isso deve ser definido pelo médico), estaremos bem. As pessoas com mais idade ou com problemas de rins devem ter especial cuidado com esta questão.

O corpo desintoxica naturalmente? Sim, e de várias formas, como podem ver aqui.

Em suma, se o corpo está, maioritariamente, saudável, o ideal é em comermos bem – não retirando nada da alimentação mas comendo em moderação alimentos naturais e não processados, dormir bem e mexer o corpo. O corpo humano está desenhado para, numa situação normal, se defender de agressões exteriores e aguenta um excesso ou outro. Se houver sintomas persistentes e sem aparente razão, antes um médico em vez de um detox. Antecipam potenciais questões de saúde e poupam na carteira. 🙂

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