“Comecei a ter dificuldade em dormir logo no dia em que o bebé nasceu. E não só porque ele me acordava para mamar. Comecei por não dormir a olhar para ele, fascinada com o facto de ter tido um filho, mas rapidamente passei a contrariar o sono para o vigiar e evitar que algo lhe acontecesse. A síndrome da morte súbita não me saia da cabeça. Sentia uma responsabilidade enorme e a única maneira que encontrei para lidar com ela era estar o mais atenta possível a tudo. Se respirava, se não se engasgava, se conseguiria salvá-lo de um imprevisto…”

“Tenho memórias muito bonitas dos primeiros tempos que vivi com o meu filho, mas não me esqueço do medo que me assaltava todos os dias, principalmente à noite.”

Catarina, que foi mãe pela primeira vez aos 29 anos, só procurou ajuda cerca de um ano e meio depois do parto. “Achava que ser mãe era viver com aquele grau aterrador de preocupação. No início, era mais fácil passar despercebido porque eu dizia que estava irritada ou cansada porque o bebé dormia mal. À medida que o bebé foi crescendo e as rotinas eram mais fáceis, a ansiedade tornou-se evidente para o meu marido, para os meus pais…”

“O momento de viragem aconteceu quando a minha mãe me disse que zelar pelo bebé não implicava tanto sofrimento.” O passo seguinte foi começar a fazer psicoterapia que, neste caso, foi “determinante” para superar a ansiedade pós-parto.

 

Mais frequente que a depressão

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica, explica que “a ansiedade pós-parto é mais comum nas mulheres do que a depressão, mas ainda assim é menos falada. É comum encontrarmos este foco em mil e uma tarefas, esta sensação permanente de alerta, que até pode minar a confiança da mulher na capacidade de cuidar do bebé de forma autónoma.”

De acordo com a Postpartum Support International, organização norte-americana que visa alertar para o impacto físico e emocional do pós-parto em mulher e homens, cerca de 10% das recém-mães sofre de ansiedade pós-parto, com maior incidência nas mães de primeira viagem, mas nem sempre isso acontece imediatamente a seguir ao nascimento do bebé.

A sensação de perigo iminente e o turbilhão de pensamentos, acompanhados por dores de cabeça, de estômago, alterações do ritmo cardíaco, dores musculares, entre outros, podem surgir meses depois do parto.

A mãe tem de cuidar de si mesma, pois só pode cuidar do bebé se estiver minimamente cuidada.

O olhar de quem convive com a mãe e com o bebé nos pós-parto é igualmente decisivo. As pessoas mais próximas devem estar atentas ao comportamento da mãe e construir uma relação de partilha em que haja espaço para dividir angústias. Principalmente se existir algum fator de risco: um historial familiar de ansiedade, ansiedade ou depressão pós-parto numa gestação anterior ou problemas de tiróide.

 

Aceitar ajuda é fundamental

A ansiedade pós-parto é temporária e tratável com ajuda especializada. É muito importante que, no meio das tarefas diárias, reserve para si mesma alguns minutos e tente perceber o que sente.

Estranho seria se a descoberta da maternidade não tivesse, em nós, algum (ou muito) impacto. É normal não saber tudo, é normal ter medo, é normal sentir-se afetada pelo choro ininterrupto de um bebé, mesmo que seja esse bebé que tanto ama.

Pedir ajuda a familiares, amigos, médicos ou psicólogos, sempre que precisar, não é um sinal de fraqueza. É um acto de amor por si mesma e pelo seu filho.

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