Li há uns tempos que “o envelhecimento é um preço alto a pagar pela maturidade”.  É um facto: apesar de tudo o que a vida vivida nos traz de bom, presenteia-nos também com os limites do corpo e da mente.

Podemos impedir o envelhecimento? Não. Podemos dar-lhe luta? Sim. E a grande arma não é a genética, nem os redobrados cuidados de saúde, apesar de darem ambos o seu contributo. A qualidade das relações pessoais é o factor mais determinante para se chegar “novo a velho”.

 

Anos a ver a vida a acontecer

Já se sabe que Harvard é uma universidade pródiga em estudos de qualidade. Um deles, o Grant Study, é um work in progress que começou em 1938, observando 268 estudantes. Estas vidas foram (e algumas estão a ser) analisadas desde então, quer do ponto de vista físico como emocional. As conclusões a que chegam, década após década, são muito interessantes:

  • Os hábitos de vida criados antes dos 50 anos são mais importantes do que a genética. Portanto, de pouco vale confiar que vamos herdar a pele óptima da tia Emília e a jovialidade do tio Luís, se não criarmos rotinas de exercício, de controlo do peso, de boa alimentação e de formas de lidar com as nossas emoções.
  • A qualidade das relações afectivas é o que faz realmente a diferença. Não só porque são um bálsamo para a alma e para o corpo, mas porque nos ajudam, por exemplo, a sarar feridas da infância que nos acompanham pela vida fora. Fica também claro, neste estudo, que um relacionamento conjugal gratificante e uma voluntária e fértil relação com quem nos rodeia atrasam o declínio funcional e a morte prematura.

 

A solidão como factor de risco

Já várias vezes li e ouvi dizer que vivemos uma epidemia de solidão. Não sei se é mesmo algo novo, ou se é uma realidade que possa ser generalizada dessa maneira. Seja como for, o isolamento e a precariedade das nossas relações leva-nos para um caminho que, pelos vistos, não é o melhor para a nossa saúde física e mental.

E é sempre importante lembrar que estar só é diferente de sentir-se só. Podemos experimentar profunda solidão mesmo estando casados; sentirmo-nos isolados mesmo vivendo numa casa com cinco pessoas.

Cabe-nos a nós procurar essa gratificação na relação com o outro. Pode implicar romper pontes dadas como garantidas ou criar outras, novas, mais desafiadoras, mas que nos podem fazem melhor. Pode implicar esquecer as vezes que já nos desiludiram e dar mais alguns créditos à humanidade. Pode implicar vencer o cansaço de tentar.

Principalmente quando a vida familiar e profissional deixa de nos ocupar tanto, é fundamental cultivarmos a curiosidade pelo mundo, pelo que dizem e fazem tanto os mais novos, como os mais velhos, e os da nossa idade. O nosso tempo será sempre este tempo.

Temos coisas a ensinar e muitas a aprender. Cursos para fazer. Obras de artes que nos vão comover. Viagens que valem por uma vida. Amor para dar e para descobrir. Fecharmo-nos no sofá lá de casa, em rotinas auto-centradas, em luto pelo que a vida nos foi retirando, tem efeitos negativos no corpo e na mente.

Por mais desconfortável que possa ser, abrirmo-nos aos outros, disponíveis para amores de carne e osso (e até com quatro patas), é um exercício de vitalidade e esperança. E nunca é tarde demais para o fazer.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *