Desde que fui mãe que a culpa me acompanha. Uns dias mais evidente, outros mais subtil, mas anda sempre por aqui, com um sensor muito apurado e pronto a fazer disparar o alarme.

Cada dia em que chego depois das 20:30, penalizo-me. Quando o resultado de um teste é mais baixo do que o anterior, penso, imediatamente, que deveria ter estado mais presente nas horas de estudo. Se vou jantar com amigos, porque preciso de descontrair depois de uma semana intensa, há um lado meu que acha que devia ficar em casa, para os compensar.

Sei que há muitas mulheres que recusam uma oferta de emprego porque não querem prejudicar os filhos com as ausências que as novas funções implicam. E que se sentem a falhar como mães quando decidem divorciar-se ou mesmo quando mantêm o casamento (apesar de terem poucos motivos para o fazer).

Não dá para negar que as nossas acções enquanto mães (e também pais) afectam os nossos filhos. Mas é impossível exercer uma parentalidade limpinha, de mães perfeitas que sabem sempre dizer a palavra certa, que nunca se exaltam, disponíveis no momento exacto.

Sim, somos responsáveis pelos nossos filhos e o que fazemos, de bom e de mau, vai-lhes deixando marcas, boas e menos boas. Mas se é verdade que a maternidade e a responsabilidade andam (e é bom que andem) de mãos dadas, também é verdade que a culpabilização, regular e esmagadora, não faz bem a nenhuma mãe, a nenhuma família.

 

A hiperesponsabilidade

No momento em que engravidamos, sentimo-nos logo responsáveis. Somos avisadas sobre os remédios a tomar, o que não comer, lava isto e lava aquilo, cuidado com a toxoplasmose, com a carne crua e com os antibióticos que são de evitar.

Quando o bebé nasce, se por acaso tem alguma alteração de saúde, mesmo ligeira e temporária, a culpa aparece. O que fizemos de errado? Será que aconteceu por termos falhado dois dias de ácido fólico? Deveríamos ter comido melhor? Controlado mais a ansiedade?

E depois, principalmente no primeiro ano de vida, somos tudo o que ele precisa para sobreviver e crescer. Somos alimento, colo e protecção. Há um ditado judeu que diz: “Deus não podia estar em todo o lado, por isso criou as mães”. E se isso é fascinante, é também uma carga emocional pesada.

Para mim, foi muito intenso, e acho que também o é para muitas outras mulheres. Cabia-me sustentar aquela vida, eu era a grande responsável por ela e isso era mais importante que tudo. Falhar estava fora de questão. Por isso, a cada insucesso ou hesitação, fosse na hora de lhe sossegar o choro ou de a adormecer, a culpa aparecia.

 

Então, e o que acontece connosco?

Os primeiros tempos de maternidade abrem espaço para estes sentimentos. E eles vão ficando por lá e interferindo nas decisões que tomamos. Se, por um lado, o sentido de responsabilidade é desejável – ter um filho é, sem dúvida, aceitar uma missão na vida -, por outro temos de saber dar um chega-para-lá na culpa, essa mão que nos aperta o coração.

Sylviane Giampino, psicanalista francesa, explica que se queremos que a culpa não seja esmagadora, devemos olhar para o nosso papel de mães numa outra perspectiva:

“Há que renunciar à ilusão de que somos todo-poderosas e o único garante do bem-estar dos nossos filhos. É importante saber pedir ajuda e dividir o peso da responsabilidade com o pai da criança ou com outras pessoas próximas. Escapamos melhor à culpa se não nos sentirmos isoladas ou as únicas responsáveis.”

Acrescentaria que o passo seguinte passa por termos tempo para nós, para o que nos dá prazer, para o que nos realiza como mulheres e como profissionais. Isso não é um capricho, é um caminho para sermos mais felizes (em pleno direito) e também melhores mães.

 

Todos têm uma opinião sobre o que uma mãe deve ser

Há quem diga que nunca se deve discutir religião e política. Eu incluiria aqui, nos temas fraturantes, a cesariana vs parto natural, a amamentação, os horários de sono, o mimo, os elogios e mais cinco pares de botas que, geralmente, dão chatice.

É tudo muito extremado, muito interventivo. E este tom não tem só a ver com a pertinente defesa do interesse das crianças. Tem a ver sim com a visão rígida de cada um sobre o que é ser uma boa mãe e a vontade de evangelizar o mundo a partir desse exemplo individual.

O debate agressivo e até cruel sobre que é correcto na maternidade é só uma forma de deitar achas para a fogueira da culpa (e de as vozes mais sonoras encontrarem validação). Saber seleccionar a quem damos ouvidos é fundamental, quando todos parecem ter uma solução debaixo da língua.

Há nove anos que sou mãe e, passado este tempo, acredito que a nossa missão será cumprida se conseguirmos que os nossos filhos se respeitem e respeitem os outros, possuam uma auto-estima suficientemente forte para resistir aos percalços da vida, e souberem que haverá sempre um colo, o nosso, para os acolher.

E chegar até aqui não implica anularmo-nos, esquecermo-nos de nós mesmas. Muito menos vivermos condicionadas pela culpa. É sim um caminho de equilíbrio entre o que nós precisamos e o que eles precisam de nós.

6 Replies to “É possível ser mãe e não sentir culpa?”

  1. Penso nisso tantas vezes….e a ideia de repartir mais a responsabilidade também, mas depois também tenho a mania que só eu é que faço bem…coisas de Mãe 🙂
    Parabéns pelo tema e pelo site – adorei!

    1. Que bom saber que está a gostar de nos ler, Beatriz. Ficamos mesmo felizes.
      Em relação ao que diz, padeço do mesmo mal. Mas temos de saber confiar em quem merece. Ganhamos todos (todas) com isso
      🙂

  2. Excelente reflexão…
    Ao fim de 16 anos, um divórcio conflituoso aos 4 anos de vida do meu filho, com muito sofrimento de ambos, a culpa tem sido um peso enorme de facto…
    Libertar essa carga requer um esforço incessante…
    Que todaa nos consigamos libertar, tendo consciência de que somos as melhores mães que podemos e sabemos!
    E que acima de tudo nos libertemos dos julgamentos alheios…
    Obrigada pelo texto 😊

    1. Obrigada pela sua partilha, Susana. Temos mesmo de lutar contra a culpa, especialmente quando ela é gerada pelos palpites de quem está de fora. Cada mãe sabe de si e dos seus filhos. Parece-me até que quem mais julga é quem está mais inseguro neste caminho da maternidade.
      Um beijinho e seja bem-vinda à Liiv. 🙂

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