Muitos livros infantis continuam a propagar a imagem da avó como uma senhora velhinha, com uma manta no colo, de cabelo branco apanhado, na casa onde sempre viveu a cuidar da família.

Mas, hoje em dia, o mais provável é encontrarmos avós que ainda trabalham, que conduzem, fazem zumba, e chegam a ter uma vida social mais intensa que os filhos. São mulheres ativas que cultivam a sua individualidade, muitas vezes menos disponíveis do que acontecia antigamente.

Um destes dias iremos falar sobre o impacto deste novo perfil de avós (e, claro, avôs) nas famílias e nos netos, mas hoje vamos olhar para as várias cores deste amor de avó, esta descoberta tardia mas segura de um sentimento que pode ser transformador.

A Isabel e a Maria, duas avós com 62 e 64 anos respectivamente, abriram o seu coração à Liiv, e nós gostámos muito de as ouvir. Ambas foram muito dedicadas à sua profissão, mas hoje, apesar de não serem apenas avós, os netos encontram nelas um apoio muito presente. E elas encontram neles memórias e forças surpreendentes.

 

O que é ser avó?

Isabel: É um renascimento, em que assistimos a um renovar de gerações. É também voltar à infância, a brincar só porque sim, a uma leveza da qual já não me lembrava. Quando nos dizem, pela primeira vez, que temos um neto, há sensação estranha, mas maravilhosa. Tenho oito netos, é muito gratificante, para mim, ser avó. É um sentimento de genuína felicidade.

Maria: Sinto-me enriquecida, mais preenchida. Sou mais alegre, mais feliz, sem dúvida. Ser avó é, para mim, sentir que a minha vida, o meu legado, se prolongou, há como que um reforço de sentido. E fico também feliz em saber que o meu filho e a minha filha descobriram esse enorme amor de pai e de mãe, essa ligação à vida.

 

O que aprendem com os netos?

Isabel: Nesta convivência com os meus netos voltei a sonhar. Voltei a desfrutar de uma certa ingenuidade. Tenho hoje, com eles, a noção mais clara de que temos de aproveitar cada segundo, cada momento, porque passa tudo mesmo muito rápido.

Maria: Aprendi a ser mais serena. Estar com eles, para mim, é uma espécie de meditação. Quando brinco com eles ou estamos a conversar, não penso nos problemas. Acho que me ensinam a ser mais presente, a dar mais valor a cada segundo, a cada momento. Sei que não sou eterna e, por isso mesmo, esforço-me por usufruir de cada minuto que temos juntos.

 

Em que mudaram as vossas vidas?

Isabel: Além do meu dia a dia, que agora passa por ir buscar alguns deles à escola, por tê-los às vezes a dormir em minha casa, houve uma grande mudança que fiz por causa de um neto. Um dia, ele apareceu-me de lágrimas nos olhos e disse-me: “A avó vai morrer, não vai?”Eu acalmei-o, mas ele acrescentou: “Eu sei que toda a gente morre, mas a avó não precisava de fazer por isso.” Nunca mais fumei. E a família ficou toda muito surpreendida, porque há anos tentava dissuadir-me dos cigarros.

Maria: A minha neta mudou-me mesmo antes de nascer. Eu fumava diariamente e, apesar de ter alguns cuidados e não fumar dentro de casa, não quis que ela nascesse num ambiente minimamente tóxico. A minha filha estava grávida de 6 meses quando fumei o meu último cigarro. Já passaram quase 10 anos. Foi das melhores decisões que tomei.

 

Como é a relação com os netos?

Isabel: É muito doce, muito cúmplice. Os mais velhos, por exemplo, deixa-me bilhetinhos na mesa de cabeceira, fazem-me desenhos. São muito queridos comigo e eu com eles. Uma das minhas netas está sempre a dizer-me que eu devia viver com ela e com os pais. São muito doces… Comigo tudo parece ser mais fácil do que com os pais, talvez porque não tenham que fazer aquele teste de força que faz parte do crescimento. Eu não os deseduco, mas não sou tão exigente como a mãe ou o pai. Estou aqui para os mimar.

Maria: Muito afectiva, muito meiga, muito cúmplice. Acho que sou para eles um porto seguro, uma referência, um calor no coração, principalmente quando os pais não estão presentes. Eu equilibro-os e eles equilibram-me a mim, quer pelos mimos que trocamos, como pelas conversas que temos. Guardo as cartas e bilhetes que a minha neta me escreve como se fossem tesouros. E a primeira vez que cada um deles me chamou avó é algo que nunca esquecerei. Usufruo disso tudo, e eles também, sem o peso da responsabilidade que tinha enquanto mãe. É maravilhoso.

 

E as nossas avós leitoras? Querem contar-nos a vossa experiência?

Adoraríamos saber 🙂

Fotografia: Istockphoto

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