Ao consultar o Expresso logo pela manhã, deparei-me com um estudo sobre a qualidade do sono dos pais e das mães, feito na Alemanha. A conclusão? Eles só conseguem recuperar o padrão normal e as noites bem dormidas cerca de seis anos depois do nascimento do primeiro filho.

Os investigadores disseram ao The Guardian que não esperavam que demorasse tanto tempo (apesar de ser mais reduzido no segundo e terceiro filho). E que “no caso das mulheres, as mais afectadas, a perda de sono é de mais de uma hora por noite nos meses após o nascimento do primeiro filho, reduzindo-se esse tempo para quarenta minutos quando passa o primeiro ano.”

Vamos lá ver: só fica surpreendido com este resultado quem não tem filhos ou quem, por milagre, tem filhos que dormem oito horas seguidas desde que saem da maternidade, nunca adoecem, nem são assolados por agitações nocturnas. E, mais difícil, um pai ou uma mãe que não se sintam responsáveis pelos filhos, a qualquer hora do dia.

Eu sou mãe há nove anos, fui novamente mãe há um ano e meio e, garanto-vos, estou longe de recuperar os meus padrões normais de sono.

 

Resistir, resistir

Eu preciso de oito horas de sono, seguidas, para me sentir fresca pela manhã. Já precisei de muitas mais, no auge do sono adolescente, mas agora fico bem assim. Quando isso acontece (talvez uma ou duas vezes por ano), ouço coisas como “estás mesmo com bom aspecto”. Na verdade, só não estou com o ar acabado de quem dorme umas 6 horas por noite com, pelo menos, uma interrupção.

É claro que os dias de hoje não são, felizmente, parecidos com os primeiros meses após o nascimento de um bebé. Perdi, nessa fase, muito mais do que uma hora de sono. Andava irritada, ansiosa, alterada. Comia doces a meio da noite, porque o açúcar me dava algum alento no meio de tanta confusão mental e cansaço físico.

Hoje durmo melhor? Sim, mas sou interrompida, sempre, até porque o meu ouvido tornou-se mais sensível, como acontece com a generalidade das mães.

E se com uma filha a interrupção era mais espaçada, com dois a coisa complica-se. Ou é preciso mudar a fralda, ou há um pesadelo, ou a tosse voltou, ou a constipação passou de um para outro ou, azar dos azares, estão os dois com uma gastroenterite, que é como ver “O Exorcista” em dois ecrãs, ao mesmo tempo, às cinco da manhã.

A vida de mãe e de pai passa a ser uma luta noturna de resistência. Contra a vontade do corpo e da cabeça, que só quer sossego e descanso. Não fosse o amor que lhes tenho e a forma me enchem de ocitocina mesmo nas noites mais difíceis, a memória seria apenas a de uma tortura.

 

Não vou deixar de ser vigilante

Apesar de me custar todos os dias acordar com a sensação de cérebro espremido e dois quilos em cada pálpebra, já me reconciliei com a ideia de não ter o tempo e a qualidade de sono que desejaria.

Costumava ficar irritada, revoltada, ansiosa. Agora, rouba-me a energia e, nos dias mais difíceis, algum grau de tolerância, mas é uma condição que aceitei, como mãe. Sei que não vai passar nem daqui a um, nem a seis anos. Provavelmente, nunca vou voltar a dormir, completamente rendida ao sono, como o fiz antes de ser mãe.

Este é o meu novo padrão. Porque ser mãe é ser vigilante. Porque agora eu tomo conta deles e já deixei de ocupar aquele lugar do mundo em que só tomam conta de mim.

Mesmo quando passo um fim de semana fora longe dos meus filhos, desperto ligeiramente a meio da noite a pensar se estão bem. Calculo que, um dia, quando saírem à noite, só conseguirei cair no sono profundo quando eles estiverem na cama. E quando forem adultos? Não sei, mas parece-me que, lá no fundo, estarei sempre disponível para “acordar”, caso precisem de mim.

 

O amor e outras coisas

Há alguns anos, no final de uma aula de ginástica para bebés, tinha a minha filha 8 meses, perguntaram aos pais e mães o que tinham descoberto com o nascimento da criança. “Um amor incondicional e pleno” foi a resposta consensual, mas a conversa propriamente dita ficou mais interessante quando falámos de outras coisas que estávamos a descobrir através desse amor.

É ele que nos alarga o coração e nos mostra que somos muito mais resistentes, muito mais capazes de nos sacrificar por outro ser humano do que pensávamos ser. É esse amor que nos faz aguentar as noites interrompidas e lutar por alguém mais do que por nós mesmos. É ele que nos distrai do nosso umbigo e coloca o nosso olhar noutra pessoa, noutro futuro.

E isso é para a vida toda. De dia e de noite. O melhor é descobrir o sabor de café de que se gosta mais, uma maquilhagem simples e um bom corrector de olheiras que opere milagres. O cansaço vem neste pacote que tem tanto de mágico como desafiador e que, seguramente, eu não trocava por nada.

2 Replies to “Mães: Seis anos de privação de sono? Não brinquem comigo”

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