À excepção das tragédias familiares, o momento em que percebemos que os nossos pais precisam de ajuda de forma contínua marca um ponto de viragem na nossa vida, a vários níveis. Especialmente porque nunca deixamos de ser filhos deles.

Quando o acompanhamento filial passa a ser uma constante, quando temos de ser nós a tratar do dinheiro, dos bancos, dos médicos e da medicação, quando lhes ligamos com frequência com medo que não estejam bem, é sinal que está na hora de fazer alterações à estrutura familiar.

Que fazer? Arranjar espaço em casa para os acolher? Procurar um lar que os acolha com dignidade? Contratar alguém que cuide deles em casa? As soluções existem e dependem, na maioria dos casos, da viabilidade financeira de cada um. Mas enquanto a logística obedece apenas a um critério, o modo como vivemos essa passagem tem bastante mais camadas emocionais, muitas delas, sem que nos demos conta.

Porque se, em teoria, encaramos a passagem do tempo como normal, perceber que os nossos pais já não têm o vigor e a saúde de outros tempos e conviver com o desamparo que a velhice normalmente traz, confronta-nos não apenas com o nosso próprio desamparo, mas com o final emocional da nossa infância.

Não é o facto de fazermos com os nossos pais aquilo que eles sempre fizeram connosco em crianças que os torna nossos filhos.

É, justamente, porque eles continuam a ser pais e nós continuamos a ser filhos que a coisa se complica. Sobretudo, se a relação com os pais tem mágoas por sanar. E qual não tem? E tendo, onde vamos buscar força para tratar de alguém a quem devemos a vida e umas quantas dores?

Onde colocamos a ambivalência de sentires diferentes, do sofrimento imenso de os sentir mais perto do fim da vida e da zanga infinita de um colo que não souberam dar?

Não há uma resposta fácil ou simples. Cada um de nós terá de encontrar essa resposta dentro de si. O que sei, por mim e pelas vidas de quem tenho perto, é que há questões que nos podemos colocar antes de entrarmos nesta fase da vida, que é deles mas também é nossa. Questões que podem ajudar a clarificar caminhos e motivações.

  1. Serei capaz de tomar conta do meu pai e mãe (ou apenas um deles)?
  2. Tenho capacidade financeira para o fazer?
  3. Que mudanças terei de efectuar na minha vida? 
  4. Como é que isso pode afectar a minha saúde física e mental? 
  5. Tenho o apoio do meu marido e filhos?
  6. O resto da família poderá ajudar-me em caso de necessidade?
  7. Tenho possibilidade de tirar tempo ou faltar ao trabalho em caso de necessidade, sem que isso (me) prejudique na empresa?
  8. No caso de demência de um dos pais, conseguirei lidar com o embate emocional de palavras e acções mais violentas?
  9. Conseguirei ter tempo para a minha vida pessoal e familiar? 
  10. Terei condições emocionais, face à relação que tenho com os meus pais, para tomar conta deles?

Esta última questão, no fundo, é a que pode equilibrar ou desequilibrar as nossas decisões. Não menosprezemos o impacto emocional desta fase. Preparemo-nos para ela.  Nascemos filhos e queremos assim ser reconhecidos para sempre. Mimo e cuidado infinito, como na fantasia infantil.

O poeta brasileiro, Fabrício Carpinejar, diz que “todo o filho é pai da morte de seu pai”. É um facto. E enquanto estão connosco, seremos sempre filhos deles. Cuidemos deles. Cuidemos de nós. Cuidemos de nós com eles.

 

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