Estava no balneário da piscina a preparar-me para ir nadar, no meio de uma dezena de crianças acabadas de sair da sua aula. As respectivas mães e cuidadoras estavam naquela correria animada de limpa, veste, “está quieta”, “calça os sapatos”, quando, ao meu lado, vejo uma adorável miúda que não teria mais de 3 anos. Cabelo ainda molhado e despenteado, uns olhos enormes e doces. Olhei para ela, sorri, ela sorriu de volta, ficamos a fazer caretas uma para a outra, num encanto interrompido pelo berro da mãe: “Mariana, tira a mão do pipi! Isso é feio! És feia!”

Não quero com este texto entrar em juízos de valor sobre esta atitude da mãe. Não sei a história dela, não faço ideia o que viveu ou vive e o intuito não é encontrar culpados. Ainda assim, é importante perceber que as atitudes dos pais face à sexualidade têm influência directa no modo como os filhos vêem a deles. E isto, é inegável.

Não sei se a pequena Mariana se estava a masturbar, não vi, mas é possível que estivesse. E é possível porque é normal, sobretudo a partir dos 2 anos, e, nessa idade, pode ser observado principalmente no banho. É o momento em que as crianças começam a descobrir o seu corpo, a explorá-lo e a encontrar partes dele que lhes dão prazer.

Entendo que a palavra “masturbação”, quando associada a crianças, faça ranger os dentes até aos pais mais esclarecidos, mas isso diz mais sobre os pais do que sobre os filhos. Se existe neles a negação de que as crianças podem ter prazer com o seu corpo, se o ignoram ou castigam, então o problema é dos pais, não é dos filhos. E isto é igualmente inegável.

 

Os “maus” genitais

As crianças não sentem nem pensam que os seus genitais são “maus” ou uma zona proibida que não pode ser tocada. Os adultos é que pensam assim e isso faz com que, propositada ou inadvertidamente, passem essa ideia.

Entre os 3 e os 6 anos (dependendo do grau de desenvolvimento de cada criança) é expectável que se masturbem e isso só causa constrangimento nos pais porque olham essa fase essencial do crescimento com olhos de adulto e não com o pensar de criança. Tocar numa zona que lhe dá prazer é prazer, não é “sujo” nem “proibido”.

Há primordialmente duas razões que levam as crianças a masturbar-se: o prazer que lhes dá e é descoberto na exploração do corpo; a reacção a emoções com as quais ainda não sabem lidar (tédio, frustração, ansiedade) ou as alterações na sua rotina (mudança de escola, deixar de usar a chucha). Neste último caso, a masturbação proporciona uma sensação de alívio, de controlo e é a resposta do seu mundo interno a algo que se passa, exterior a si.

A masturbação é natural quando nasce de um desejo de exploração do corpo e é parte de um desenvolvimento sexual, de uma descoberta contínua. A masturbação é menos natural quando essa descoberta não é apenas curiosidade e passa a ser o único foco de prazer da criança, afastando-a dos outros e de outras formas de prazer, como brincar.

 

Tendo dito isto, o que fazer quando a sua criança se masturba?

Primeiro, o que não fazer: gritar, castigar, reprimir, dizer que ele é feio, que o gesto é feio e por aí fora. Só vai reforçar o comportamento e criar-lhe um conjunto de crenças sobre o seu corpo e a sua sexualidade que o afectarão no futuro. E isto é, mais uma vez, inegável. Claro que não isto significa que, para ser sexualmente saudável, a pessoa precisa de se masturbar em criança. Claro que não. Mas se o fizer – e é possível que o faça -, não repreender ou reprimir é contribuir para uma auto-estima e exploração mais liberta da sua sexualidade adulta.

Dependendo da idade da criança, é importante explicar-lhe ou mostrar-lhe que não há qualquer problema mas que há coisas que se fazem em privado, no quarto delas, e não na sala ou na escola, à frente dos pais e dos colegas.

Por vezes, distraí-la do que está a fazer, orientá-la para uma actividade que todos possam participar, por exemplo, é quanto baste para o comportamento parar naquele momento, sobretudo quando são crianças mais pequenas. Mas lembrem-se que, sendo algo prazeroso, é provável que volte a acontecer até ela deixar de o fazer, naturalmente.

Mais uma vez, entendo a dificuldade dos pais perante o tema. A maior parte deles não quer passar ideias erradas para os filhos, mas entendem que eles precisam de aprender a ter uma noção de limites e de desenvolver um sentido de privacidade e segurança no modo como vivem a sua sexualidade, ainda que numa fase incipiente.

E pensem: na dúvida, consultem um especialista. Para a criança e, quem sabe, para os pais.

 

4 Replies to “Porque é tão difícil lidar com a masturbação infantil?”

  1. É “irrebatível” a forma como aborda a questão. A impreparação dos pais aflora sobremaneira quando o assunto é a sexualidade dos filhos. Causa-lhes efectivamente embaraço e desorientação Porventura reflexo da forma como eles próprios foram educados. Não sou mãe, mas sou espectadora de muitos pais. E vejo-os, transversalmente a replicarem atitudes de que foram alvo enquanto filhos e que muito contestaram. Nunca cedi a dar-lhes a minha opinião. Mas cedo a dar a conhecer a sua reflexão. Obrigada!

    1. Obrigada, Maria, concordo totalmente, não há como fugirmos dos modelos dos nossos pais. Não é que isto seja uma fatalidade, de todo, temos sempre a possibilidade de fazer diferente, mas, para isso, precisamos de estar conscientes do que somos e fazemos. Ou temos de ir estando, que isto é trabalho de uma vida. Um beijinho.

  2. Uuui! O mais novo cá em casa (6 anos), anda entusiasmado com a masturbação. Confesso que quando começou, a primeira atitude foi: não faças. Agora é dirigido para: é algo privado e se queres fazer vais até ao quarto. Será correcto? Não sei… Mas tendo em conta que não quero valorizar demais, e que ele não o faz na rua, nem na escola… vou ver como evolui.

    1. Olá, Cláudia, é isso mesmo. Estar atenta a ele, orientá-lo para um reduto privado sem reprimir e mostrar que está para ele, sempre que ele quiser. Um beijinho!

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