Depois dos primeiros anos da infância, em que ainda se está a tentar perceber que pessoa é aquela que veio ao mundo, a adolescência é a fase que mais trabalho dá aos pais. E digo trabalho porque saber lidar com um ser humano dividido entre a necessidade da família e a vontade de explorar o mundo, requer trabalho, compreensão e muita, muitaaaa calma.

Antes de entrar em parafuso com o seu adolescente,  lembre-se de quando era também adolescente. Não interessa se com a idade dele já trabalhava, se os tempos eram outros ou se tinha mais maturidade. Interessa o contexto do seu filho no tempo em que ele vive, que é diferente do seu contexto no tempo em que o viveu. Consegue lembrar-se das dificuldades que tinha? Ele também as tem.

Se fizer um esforço de memória e se lembrar de como era difícil o permeio entre o mundo infantil e adulto, talvez consiga compreender melhor o adolescente que tem em casa. O amor pelos filhos deve ser empático, com os pais a colocarem-se no lugar deles sem agirem como eles, e serem um receptor e contentor das suas dúvidas, receios e frustrações.

 

As dificuldades dos filhos

É também importante que os pais percebam que, por mais que lhes custe lidar com esta fase dos filhos, talvez custe mais aos filhos lidar com aquilo que o mundo espera deles, por ainda não terem maturidade para compreender o que lhes acontece, dentro e fora de si mesmos. É uma vivência algures entre uma necessidade inata do colo dos pais, mesmo que rejeitem esse colo, e de libertação, ao mesmo tempo.

São meninas-mulheres, meninos-homens, à procura da sua identidade, de conflito interior em conflito interior. Procuram a autonomia mas ainda não estão bem preparados para ela; querem individuar-se da família mas acabam por escolher outra família, a dos amigos, onde continuar o seu processo de crescimento e reforço da auto-estima.

Dentro deles já não existe apenas a mãe e o pai e a família, mas também os amigos, o embate com o mundo e os primeiros amores. E o sexo, essa força motriz essencial para a libertação da infância e entrada no domínio adulto.

O que o adolescente vê nos pais, umas vezes de forma consciente, outras inconscientemente, é um entrave aos seus desejos, pessoas que estão para obstruir o seu caminho e as suas concretizações, que o afastam de uma nova vida, mais prazerosa, que ele está a conhecer. Esta é a dificuldade maior com que se debatem em casa, quando os pais, naturalmente, os puxam à terra e às responsabilidades, próprias da sua maturidade e das suas funções.

 

A tarefa dos pais

É importante que os pais percebam as dificuldades emocionais dos filhos nesta fase, que sejam seguros e firmes com eles, que não queiram ser demasiado duros nem os pais “cool e amigos”. Alguém tem de ser o adulto nesta dinâmica e esse adulto tem de ser o pai e a mãe. Nesta fase, talvez mais do que em qualquer outra, a abertura à pessoa que se está a formar é fundamental.

Já não são as birras do sono, os dentes a nascer, as doenças de infância, o que preocupa pai e mãe, isto é outro campeonato; é aquele em que, além de pais e filhos, há adultos formados e adultos em potência, pessoas diferentes que se amam mas que estão, tantas vezes, em conflito. Aceitar isto, é aceitar também que os filhos já não são, nem voltarão a ser bebés, que o tempo passa, às vezes depressa demais, e que há alguém que cresceu, tem uma voz e um lugar, e que quase não se deu por isso.

O trabalho aqui é outro. Já não são as noites mal dormidas pela febre, são as noites em claro porque os filhos ainda não chegaram a casa, porque fazem escolhas que não entendemos e porque já não os podemos sentar no colo e protegê-los de um mundo que eles insistem em explorar à força.

Como lidar com isto? Não há uma fórmula. Mas ajuda muito estar receptiva a este adulto em formação, disponível para ouvir sem reprimir, ser claro e objetivo nas regras necessárias e, claro, manter o colo quente para quando eles quiserem voltar a ser o bebé dos pais. E mesmo que digam ou mostrem o contrário, eles vão querer sempre.

Mães e pais de adolescentes, há por aí?

 

Fotografia: Istockphoto

2 Replies to ““Olá, mãe, olá, pai, já sou adolescente””

  1. Claro que sim: adolescentes com as hormonas aos pulos, com a necessidade de afirmação, sede de aceitação, amigos que dizem uma coisa e fazem outra, o confronto com um mundo com o qual há dias em que se identificam a 100% e outros em que se sentem desintegrados a300%, as maminhas que crescem ou que tardam demasiado em crescer, os pelos na púbis e/ou no bigodito … um turbilhão de pensamentos, descobertas e emoções em pequeninas amostras de gente. O colo é uma mais-valia e é isso o que nos permite mantê-los pertinho. (E se não estiverem «ganhos» nestas idades, dificilmente se apanham mais tarde…)

    1. É isso mesmo. Se não estiverem ganhos até aí, a vida adulta poderá ser mais complexa. Vale a pena a paciência e o esforço. Obrigada pelo seu comentário tão pertinente. 🙂

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