São 21:30. Apesar de me ter dito que o dia correu bem, a minha filha parece um pouco agitada. Está de pijama, dentes lavados e copo de água na mesinha de cabeceira. Parece pronta para ir dormir mas eu sei – nós sabemos – que os nossos próximos dez minutos vão servir para desatar aquele nó pequenino que a impede de cair no sono.

Desde muito cedo, mal ela sabia falar, começámos a reservar algum tempo para conversar antes de deitar. Esses momentos tornavam-se mais importantes quando a sentia incomodada, mesmo que ela nem tivesse consciência disso (muito menos do motivo).

Quando tinha 3 anos e era complicado falar de sentimentos abstractos ou identificar episódios do dia que a tinham incomodado, criámos um código de cores: se o coração estava preto, a situação estava pesada; o rosa era um “tudo bem”, o vermelho uma explosão de alegria. Não lhe impus essa correspondência, foi natural, em função da maneira como as cores a faziam sentir.

Percebi que estes minutos eram um bálsamo para o seu estado de espírito, mais do que qualquer outra coisa, mesmo a leitura. Ainda hoje, quando lê já deitada na cama, fica mais focada e relaxada, mas não mais segura, ouvida, amparada.

 

Olhar para o coração, a dois

Quando chego a casa e lhe pergunto como correu o dia, geralmente a resposta é “bem”, a não ser que tenha havido um drama-tragédia-horror que envolva a melhor amiga.

Mas, naquela janelinha temporal, entre o deitar e o adormecer – talvez porque, na antecipação do dia seguinte, a ansiedade e a insegurança aumentem -, a memória aviva-se. Aquilo que ela foi ignorando ao longo do dia, torna-se assunto para ser falado a dois, a duas, neste caso.

Falamos do que aconteceu, de como se sente. Às vezes tem vergonha, outras sente-se culpada, outras sem vontade de ir à escola. Na maior parte dos casos, o meu papel é relativizar e ajudar a diluir a ansiedade. Noutros é, com ela, encontrar uma forma de resolver um conflito no dia seguinte. Ou uma oportunidade para pedirmos desculpa uma à outra, já sem tensão (eu, por ter gritado; ela, por ter desobedecido).

Acima de tudo, é mostrar-lhe que, aconteça o que acontecer, estarei ali para a ouvir, de coração aberto. E de a ensinar, pela prática, que quase todos os problemas podem ter uma solução.

Já levamos uns anos disto e tem resultado connosco. Não tenho qualquer fundamento científico para recomendar este formato, mas a minha experiência tem-me mostrado que pode ser mesmo mágico.

 

Encontrar tempo quando ninguém tem tempo para nada

Nós não vivemos numa história de encantar e estaria a mentir com todos os dentes se dissesse que tenho, todos os dias, presença de espírito e oportunidade para fazer isto.

Fazemo-lo com frequência, principalmente quando detecto pequenos sinais de que ela não está assim tão “bem” . Mas há dias em que tenho de terminar a conversa à pressa (porque os 10 minutos já vão em 20 e já são 22:00), outras estou tão desgastada com o meu próprio dia que não tenho grande ânimo para lhe dar (e remeto a conversa para o dia seguinte, a caminho da escola).

Mas aquele canal existe. Aquela ligação está ali pronta a ser usada. E essa certeza ajuda-a a sentir que o amor que lhe tenho não é apenas uma palavra, é uma prática incondicional, para toda a vida.

(Tenho uma certa esperança que esta nossa rotina de proximidade me permita manter com ela um mínimo de diálogo durante adolescência. Veremos, mas pelos relatos que me chegam de mães com filhas adolescentes… Teme-se o pior!) 🙂

5 Replies to “A magia das conversas antes de dormir”

  1. Faço o mesmo com a minha filha, que adora conversar na cama e é a altura que também aproveito para ela me contar algum problema que possa ter – acho importante que se sinta completamente à vontade para me contar o que ela quiser e saber que pode contar comigo sempre e para tudo!

    1. Que bom, Beatriz. São momentos que nunca vão ser esquecidos. É engraçado ver como a nossa intuição de mães nos leva muitas vezes aos mesmos lugares e hábitos. Obrigada pela sua partilha. Estamos aqui para isso 🙂

  2. Olá Liliana! Parabéns, o site é fantástico! Os temas abordados são imprescindíveis. Sobre este artigo, faço o mesmo com o meu filho e tem-se revelado uma experiência de conhecimento mútuo. Sobretudo, permite-lhe a ele, exteriorizar sentimentos que ainda não tinha verbalizado e dialogar sobre eles. Obrigada!

    1. Olá Filomena,
      É mesmo muito bom saber que está a gostar da Liiv! Agradeço muito as suas palavras. É muito interessante ver como muitas mães valorizam estes minutos com os filhos. Obrigada por ter partilhado a sua experiência aqui.
      Até breve 🙂

  3. Boa tarde, sigo o seu blog desde a publicação da Cócó na fralda, e identifico-me em tantos posts.
    os meus sinceros parabéns! Continuação de sucesso. E sempre muito bem escrito!
    Relativamente ás conversas antes de dormir, é prática em minha casa, e tenho um filho de 14, e o resultado está á vista nesta fase da adolescência, temos muita cumplicidade. E estou a “cultivar” com o mais novo de 8!

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