Depois de noites a fio sem dormir, com um bebé ao colo que resiste ao sono, é comum ficar-se com medo do escuro. A primeira vez que percebi que se tratava de um medo frequente, e não apenas meu, foi a ouvir a Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta de bebés (e, naturalmente, de mães).

Esse medo de estar no escuro pode ter outras origens (mais lá atrás, na nossa vida, e que a maternidade reaviva), mas surge muito com o acumular de noites difíceis. São noites em branco passadas na penumbra, quando o mundo inteiro parece estar no terceiro sono, e nós ali, a resistir a uma das nossas necessidades mais básicas.

A paciência perde-se, o ânimo também. Fazemos tudo para que o bebé durma: damos mama ou biberão, embalamos, cantamos todo um repertório musical, mudamos fralda, e nada. A nossa voz e o choro dele parecem ser os únicos sons do mundo, ali no escuro, todas as noites. Dia após dia.

Lembro-me de, a seguir ao jantar, começar a panicar. Era certo e sabido que ia ser acordada três vezes, por, pelo menos, hora e meia. E isto durou mais de um ano. Digamos que é fácil perceber por que razão o escuro deixou de me dar grande alegria, logo a mim, que sempre me senti confortável na noite.

 

Resolver o bebé

Tal como a Constança diz no seu maravilhoso “O Livro da Magia das Mães“, o bebé não é “um grande problema para alguém resolver” de acordo com tabelas e regras e rotinas que sabe-se lá quem definiu como correctas e, pior ainda, como prova do equilíbrio e da qualidade parental.

Mas, com o cansaço acumulado, na hora mais escura da noite, o que eu queria era “resolver” o bebé. Queria que dormisse, já, imediatamente. Sentia-me frustrada por não conseguir dar conta daquele recado (um recado adorável, cheio de refegos, mas desperto como uma suricata curiosa).

E quanto mais eu queria soluções, mais impaciente ficava, mais ansiosa a noite me deixava. Ocorria-me que não havia solução para nós, pois nada do que me tinha sido ensinado parecia resultar. O meu marido estava presente e disponível, mas entre a logística da amamentação e a minha vontade de ser a mãe-que-sabe-ser-mãe, eram poucas as vezes em que o deixava tomar conta da agenda noturna.

Eu estava num beco sem saída. Achava eu. Mas percebi, com a ajuda da Constança, que as duas gotas de energia que me restavam teriam de ser atribuídas a uma missão: entender-me com o bebé, sem me isolar.

“O bebé não é algo incompreensível que nos transcende. Ele é nosso e nós temos o direito de nos entendermos com ele naquilo que funciona para os dois.

 

Cuidar de nós, cuidar do bebé

Acredito que não tenha sido coincidência o facto de o meu bebé ter começado a dormir melhor à medida que eu conseguia estar mais tranquila, menos pressionada (por mim mesma). Deixei de me cobrar todas as certezas do mundo, chorei algumas vezes, e entreguei-lhe o meu coração. Sem reservas, menos presa ao tempo e aos resultados.

Aprender a estar com ele, no momento, sem exigências, foi melhor do que um exercício de meditação. Quanto mais foco lhe dedicava, mais energia me era devolvida. Menos ansiosa e a viver os momentos a dois com mais fluidez, comecei a encarar o choro e a espertina noturna com menos tensão.

Recordo-me de o ter ao colo, a meio da noite, já rendida ao facto de ele não adormecer na próxima hora e de pensar: “vou desejar voltar a este momento quando um dia ele sair à noite com os amigos e se atrasar a regressar a casa”. E soube-me bem tê-lo ali, animadamente a palrar, apesar de serem 4 da manhã.

O bebé foi assim acompanhando o meu mood, e eu o dele, ficámos mais em paz no colo um do outro (sim, ele também me aconchegava sem saber).

Mas não pensem que foi um caminho linear: houve dias melhores e piores, uns maravilhosos e outros em que parecia haver um retrocesso. Mas evoluímos, juntos. Despacito. Experimentando novas rotinas, intuitivas, e mais fluidez. Comigo a cuidar dele e de mim, e permitindo que também outras pessoas cuidassem de nós os dois.

 

A importância de ter apoio

Mais do que entrar em detalhes sobre as abordagens que podem permitir à mãe tratar do bebé sem se esquecer de si mesma (e que podem ser tantas quantas mães e filhos existirem), quero apenas dizer que é possível não nos perdermos na maternidade.

Se precisarem de informação detalhada e prática, têm dois livros fabulosos à vossa disposição: “Os Bebés Também Querem Dormir” e “O Livro de Magia das Mães“. Se vos fizer falta um aconselhamento mais personalizado, muito humano e experiente, encontram a Constança e a sua equipa no Centro do Bebé.

Entretanto, gostava apenas que acreditassem nisto: se aprendermos a olhar para o nosso bebé, a ler os sinais que nos envia, a entrar nessa aventura romântica que é descobri-lo (longe dos manuais, das regras e dos tempos do mundo lá fora), a harmonia vai-se instalando. Aos poucos, mas vai.

E no dias em que a noite aperta muito o coração, lembrem-se de fazer como a Constança, quando ela própria se confronta com o tal medo do escuro: “Penso em todas as mães e envio-lhes um pensamento de coragem. Todas as noites, em todo o mundo, há mães que velam o sono dos filhos. Não somos apenas mais uma.”

Sei que parece difícil ter este foco e presença de espírito quando estamos exaustas. Mas é esse o caminho, pois a grande sabedoria habita o coração de todas as mães. A magia é toda nossa; o amor que sentimos é o nosso super-poder.

 

Não temos de estar sós

Assumir que estamos esgotadas, perdidas ou confusas, nada tem a ver com a nossa qualidade enquanto mães, se é que pode ser aferida por algo que não seja a nossa capacidade de amar, incondicionalmente, os nossos filhos.

Pedir ajuda a um terapeuta, ao marido, à mãe, para ficar com o bebé, para conversar ou para nos preparar o jantar, é normal, é humano e desejável. Não temos de viver a maternidade em pleno controlo e contenção, num isolamento contraproducente.

É nessa experiência partilhada que evoluímos como mães e como mulheres, desfrutando verdadeiramente da “mais antiga história de amor do mundo”.

E, digam lá, haverá maior luz do que essa?

 

2 Replies to “As mães e o seu “medo do escuro””

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *