É quase sempre assim: um casal separa-se, divorcia-se e um deles não concorda com a decisão. Sente-se magoado, pouco importante, uma página virada. Depois, a mágoa dá lugar à raiva, principalmente se houve uma “traição” ou uma das partes deu início a um novo relacionamento.

E surge a vingança. Com mais ou menos consciência, é de vingança que estamos a falar.

“Desististe de mim, do nosso casamento, então vais pagar, vais perder o teu filho”.

O filho, a prova viva daquela que terá sido uma história de amor, passa a ser uma arma. Com sede de ajustar contas, muitos não hesitam em diabolizar a figura do pai ou da mãe, retratando-o como um agressor e um inimigo.

Se não lhe faltar amor e atenção de ambos os pais, uma criança seguramente sobrevive sem grandes marcas a um divórcio. Mais difícil é recuperar do golpe de uma mãe que lhe diz que o pai não o ama, que é um traste. Amy Baker, uma conceituada psicóloga americana, esclarece:

“As crianças desenvolvem a sua identidade através da relação que têm com ambos os pais. Quando lhes dizem que um deles é mau, eles acreditam que metade deles mesmos não presta.”

Vamos ser claros: alienar um dos pais é uma forma de abuso, neste caso abuso psicológico e emocional da criança. E se alguém duvida, devia ler com atenção um estudo feito com 38 adultos, nos Estados Unidos, todos eles vítimas de prolongada alienação parental.

Em graus diferentes, todos apresentam marcas inegáveis: baixa auto-estima, depressão, tendência a refugiar-se em álcool e drogas, relações difíceis com os próprios filhos, dificuldade em confiar.

Será que este é preço que uma criança tem de pagar pelo coração partido do pai ou da mãe?

 

Proteger os filhos, sempre

Todos sabemos que há emoções que nos tiram do sério. Quem nunca se excedeu numa discussão ou decidiu em função de sentimentos pouco nobres atire a primeira pedra… Mas tenho muita dificuldade em empatizar com quem agride os filhos, continuadamente, seja de que forma for.

Tem de haver um momento em que a dor que sentimos não pode ser superior ao amor que lhes temos. A missão de cuidar deles, de os proteger, tem de vencer o ciúme, o despeito, a raiva, a vingança.

Se não o fizermos, estamos a feri-los profundamente. De um modo que o tempo não é capaz de curar. Provavelmente cura a desilusão de um divórcio, a mágoa em relação a alguém que amámos e que quis ficar longe de nós. Mas não cura a dor de uma criança obrigada a rejeitar o pai ou a mãe, a odiá-los, a olhar para um deles com medo ou desconfiança.

Aliás, muito raramente um filho rejeita um pai ou uma mãe, mesmo nos casos mais dramáticos. Como criança, não tem maturidade para decidir se deve ou não ter uma relação com um dos pais. Amá-los e ser amada por eles é o seu lugar no mundo. Se parece querer afastar-se do pai ou da mãe, na sequência de um divórcio, é porque está a ser manipulado. Ponto final.

 

O que podemos fazer

Talvez quem leva um filho a odiar um pai não perceba o impacto dessa agressão. Talvez não o veja como uma agressão. Ou talvez não se importe. Seja como for, acredito que nos cabe a todos falar sobre o assunto e agir junto dos mais próximos. Daquela amiga que está enraivecida e não deixa o filho atender o telefone ao pai; do nosso irmão que insulta a ex-mulher à frente do filho desde que saiu de casa.

Quanto aos pais e mães cuja relação com os filhos está a ser minada, é importante que (por mais que custe) não entrem em trocas de insultos e mantenham o vosso amor, resistente, firme, diário. Que a um doloroso “Não quero estar contigo, pai”, respondam “Eu quero sempre estar contigo, amo-te e vou amar-te sempre”.

No tempo, acredito que essa memória irá sempre prevalecer no coração dos vossos filhos.

Gostaria muito que me contassem as vossas histórias, como filhos ou como pais. Acredito que falar ativamente sobre o assunto, em diferentes perspectivas, é fundamental para que possamos, todos, proteger as nossas crianças.

 

4 Replies to “Divórcio: quando os filhos são uma arma”

  1. Sou filha de pais divorciados e com bom exemplo deles sempre quis ficar amiga do meu ex marido por amor e respeito mesmo que vidas separadas nos esperassem. Juro que Tentei mas ele não me deixou alternativa. No início pensei, apenas pensei em ficar com a guarda total do meu filho só para não voltar a ver o pai dele. Mas percebi que não era essa a educação que os meus pais me tinham dado, mesmo divorciados. Que não era essa a pessoa que sempre fui. Decidi aceitar que desde que o meu filho estivesse feliz, o resto seria névoa. Posso não ter ficado com amizade para com o pai dele, como inicialmente queria, mas nunca usarei o meu filho como arma. Não irei falar mal do pai e jamais irei separar-Los. A imagem que o meu filho terá do pai, será da relação de ambos e da dedicação de ambos.

    1. Tatiana, parece-me que essa é uma grande prova de amor que dá ao seu filho. É difícil não deixar que a mágoa tome conta das nossas decisões. Mas é o melhor caminho 🙂

  2. Pai e mãe serão a vida inteira, por isso não devemos manipular os nossos filhos. Claro que uma separação não é fácil e para um filho é muito mais dificil pois não pode desfrutar de viver com ambos debaixo do mesmo tecto. No meu caso eu nunca falei mal do pai do meu filho a ele pois é um execelente pai e trabalha longe mas todas as semanas faz imensos km para estar com ele. Devemos ser cordias pois as crianças não tem culpa da separação. Lutarei sempre pela felicidade do meu filho e apoio o amor infinito que tem pelo seu pai.

    1. Que bom, Rosa. Mesmo que já não vivam os três na mesma casa, o vosso filho tem o mesmo amor dos pais. Isso é o que faz a diferença na vida dele.

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