Uma das minhas mais doces memórias de infância é a do perfume do meu pai. Ainda hoje, quando vejo aquele frasquinho à venda numa loja, vou cheirá-lo e regresso, por segundos, a uma idade esquecida, em que ele parecia mesmo muito alto e era capaz, posso quase jurar, de actos heróicos.

Recordo-o com muita saudade, mas não me lembro de alguma vez me ter dado banho, embalado para dormir ou brincado comigo no chão da sala. De facto, nos anos 70 e 80, o mais comum era que o pai tivesse uma intervenção com distância de segurança no quotidiano dos filhos. Era o principal ganha-pão, o fornecedor material da família, aquele que vivia essencialmente no mundo lá fora.

Desde então, o paradigma mudou. E por isso mesmo importa perceber o que leva hoje os pais a assumir um papel mais maternal e qual o impacto dessa mudança na vida emocional dos filhos e dos próprios pais. Pedimos ajuda à psicóloga clínica Teresa Lobato de Faria, que partilhou connosco aquela que tem sido a sua experiência a acompanhar crianças e famílias há mais de 20 anos.

 

Os pais mudaram porque a sociedade mudou

“Se recuarmos até à pré-História, encontramos os homens na sua versão caçadores. O papel deles era literalmente sair à procura do que a família precisava para comer e vestir. Esse registo foi evoluindo, mas, durante muito tempo, assente na ideia do pai como um único pilar financeiro da família.”

Assim, a mãe assumia-se como principal cuidadora dos filhos, algo que vivia quase em total exclusividade desde a gravidez. Pertencia-lhe o toque, o colo, o mimo, o consolo. As crianças, rapazes ou raparigas, viviam a infância num ambiente predominantemente feminino, entre avós, mães e tias, mulheres na sua versão dona de casa a tempo inteiro.

“Os pais tornaram-se hoje mais maternais, mais envolvidos em tarefas típicas das mães, porque o estilo de vida mudou, a sociedade mudou. As mulheres começaram a trabalhar, a passar mais tempo fora de casa, e isso obrigou os homens a reagir. A verdade é que nós, homens e mulheres, somos todos muito competentes e capazes de nos adaptarmos a novas situações.”

 

O que ganham as crianças com esta versão mais maternal do pai?

O contacto diário, próximo e cúmplice com o pai (além da mãe), permite-lhes perceber e lidar com naturezas diferentes, formas distintas de actuar. “Digamos que crescem com uma perspectiva mais abrangente do comportamento humano.”

“A criança que tem um pai envolvido, nomeadamente na gravidez, reconhece, como se sabe, a voz do pai quando nasce. Ouve a voz e sente-se segura. E o facto de criar, desde logo, um vínculo com alguém além da mãe é muito positivo. É bom confiar em diferentes pessoas. São essas ligações que lhe vão permitir crescer e abrir-se ao mundo, com confiança e sem angústia.”

E será que isto é diferente para meninos e para meninas? “Em certas fases do desenvolvimento, pode haver uma maior necessidade de aproximação do pai ou da mãe. Mas, venha de onde vier, o que as crianças precisam é de amor, de regras e de alguém que lhes dê a mão enquanto descobrem o mundo. E ter o pai, mais presente e disponível, fornece-lhes mais recursos do que ter apenas a mãe.”

 

E o que muda na experiência do pai?

“Há cada vez mais homens que querem e estão mais preparados para viver a paternidade de um modo que parecia reservado às mulheres. Eles ganham muito com esta proximidade, experimentam uma relação mais íntima com os filhos. É muito enriquecedor, do ponto de vista emocional.”

Por isso, celebremos hoje os pais, todos eles, mas principalmente os que põem uma mão quente na barriga, que dizem “amo-te” e adormecem os filhos nas noites agitadas. Os que lhes dão a conhecer uma barba que pica e os elevam às alturas. Os que controlam birras e os aconchegam quando estão com febre. Esses pais que respondem com amor e colo a um mundo em mudança e aproveitam esta oportunidade para crescer e fazer crescer os seus filhos.

Hoje é o dia deles, dessas figuras paternas, carregadas de afecto, que perfumam as nossas vidas para sempre.

 

Family Time é uma rubrica produzida pela Liiv com o apoio da Knot, dedicada aos temas que envolvem pais e filhos, na procura por um melhor entendimento de si mesmos, da família e do tempo que passam juntos.
Para mais informações, visite www.knotkids.com e siga @knot_kids no Instagram

 

Fotografia: Istockphoto

One Reply to “Dia do Pai: já não há limites para o amor paterno”

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