Estou a escrever este texto sentada à minha secretária, em casa. Do outro lado da mesa está a minha filha de oito anos a fazer os TPC de Português e Matemática. Este momento deixou de ser motivo de tensão entre nós. E ainda bem. Ela vai-me interrompendo para saber se se escreve embirrento ou birrento e queixa-se que o texto nunca mais acaba. Mas até nos rimos desta empreitada e eu, entretanto, aprendi a ajudá-la a superar aqueles segundos de desânimo.

Sei que muitas famílias vivem o terror diário dos trabalhos de casa. Fazer as fichas que a professora escolheu ou preparar o teste do dia seguinte são a origem de muitos conflitos entre pais e filhos.

É uma luta entre duas pessoas geralmente cansadas, no final de um dia de trabalho/escola, que se agridem com críticas, e que recorrem, uns a birras, outros a ultimatos.

E, sim, eu, pecadora, me confesso. Já gritei com a minha filha para ela acabar os TPC,  já me irritei com ela por não ter despachado as tarefas da escola mal chegou a casa. Já lhe disse “eu não era assim com a tua idade” (faço lá ideia) e que se ela voltasse a esquecer-se de fazer as tabuadas não ia poder fazer isto ou aquilo. Resultado: eu, exausta e arrependida; ela, triste e sem grande vontade de estudar.

 

O mito do “preguiçoso”

Uma das minhas recentes descobertas, Kenneth Barish, um psicoterapeuta de crianças que não me canso de citar, diz que a ideia de que uma criança é preguiçosa é um engano. Barish esclarece que “a preguiça é uma descrição, não é uma explicação”.

O nosso filho pode estar ansioso, frustrado, desencorajado, distraído ou zangado – mas não se trata de preguiça.

Por isso, antes de começar a perder a paciência e pedir-lhe para se esforçar mais, o primeiro passo é perceber a origem da “preguiça” e perceber se esconde alguma dificuldade de aprendizagem.

Qualquer criança que diga “odeio ler”, “odeio a escola”, “não quero fazer os TPC” deve ser avaliada por um psicólogo. Há que despistar questões como a hiperatividade, a dislexia, por exemplo. Ignorar essa triagem e uma eventual condição é o mesmo que pedir a uma criança para correr apesar de ter o pé magoado.

Excluídos os casos que precisam de acompanhamento especializado, passemos à prática, mas continuando a procurar os motivos que conduzem à tal falta de empenho e gosto pelo estudo.

 

O que aprendi ao estudar com a minha filha

Entre tentativas e erros, encontrámos uma forma de planear o estudo que tem evitado chatices. Mas, antes disso, eu mudei. Mudei a forma de encarar o estudo e os trabalhos da escola. Percebi que ela, ao resistir, não estava a abusar do meu tempo ou a desrespeitar o meu cansaço e as minhas indicações. Estava, ela própria, a tentar gerir as suas emoções e a energia que os TPC exigem.

Percebi que havia dias em que tudo corria sem tumultos, e outros em que fazer os trabalhos parecia uma tortura. E tentei encontrar um padrão, sinais que explicassem a oscilação de empenho. Às vezes, ela tinha dormido mal e não se conseguia concentrar. Noutros dias, uma discussão com a melhor amiga tinha-a deixado mais ansiosa e não conseguia trabalhar antes de falar sobre isso.

Percebi também que estudar com ela podia ser uma oportunidade para reforçar a confiança da minha filha, ajudá-la a lidar com o erro, com a dificuldade e a cultivar o gosto por procurar informação.

Vou deixar-vos aqui algumas ideias que a mim me ajudaram muito. São apenas baseadas na minha experiência e em algumas leituras, mas talvez vos possam ser úteis.

 

O nosso plano de sobrevivência aos TPC

 

  1. Marcar uma hora certa. Os TPC são para fazer uma hora depois de chegar a casa e antes do banho. Assim, há tempo para descontrair, lanchar e baixar os níveis de excitação com que chega a casa. A rotina está criada, não é discutível, a não ser por motivos de força maior.
  2. Deixar que fique na sala. Sempre que ia fazer os TPC sozinha no quarto, acabava por demorar mais. Distraía-se e sentia-se isolada (misteriosamente, tinha mais dúvidas do que o habitual, apenas para vir ter comigo). Condição para ficar na sala: desligar a televisão e qualquer outro ecrã.
  3. Criar ambiente de estudo. Quando estudo com ela, tento também aproveitar aquele momento para trabalhar. É bom para ela não se sentir observada a cada passo do problema de Matemática e sentir que estamos as duas num momento de concentração. Soa a equipa, e isso é muito bom. Duas pessoas autónomas, lado a lado, disponíveis uma para a outra.
  4. Gerir a quantidade de trabalho (ou a percepção dela). Quando se preparava para fazer os TPC, ao ver a quantidade de exercícios, ela ficava desanimada. “Isto é imeeeeeenso trabalho, mãe.” Às vezes, nem era muito, mas ela achava que sim. Nesses momentos, em vez de dizer “tens de te habituar, a vida não é fácil, tens de ser mais dedicada”, intervenho para organizar o trabalho, por etapas. E mantenho o meu chapéu de chefe da claque: “Estás a ver? Já só faltam dois. Foi super rápido.” Tem resultado.
  5. Ser uma boa chefe de claque. Aprender implica foco, erro, tentativa. Nada melhor do que ter alguém ao nosso lado que reconheça esse esforço. Mesmo quando se erra, se a criança fez um bom raciocínio e estava focada, é bom ir salientando essa atitude. A certa altura, percebi que a minha filha ficava frustrada se não sabia imediatamente a resposta. Foi importante termos esclarecido que não saber é um ponto de partida, apenas isso.
  6. Controlar o cansaço. Se uma criança dormir mal ou tiver a agenda cheia de actividades extracurriculares, dificilmente vai chegar atenta à hora de fazer os TPC. Assegurar que o nosso filho dorme bem e tem tempo para respirar (leia-se para brincar, relaxar, descontrair) é muito importante.
  7. Fazer estudo disfarçado. Se a criança está a aprender a subtrair, o melhor (mais do que fazer a centésima conta) é ir às compras e calcular, in loco, quanto dinheiro vai sobrar depois de pagar. Se está a estudar os sinónimos, isso pode ser mote para um jogo de pais e filhos à mesa de jantar. É uma forma divertida de sedimentar a matéria dada na escola, temperada com realidade e em família.

 

E quando não conseguimos fazer nada disto?

Continuamos a tentar. Se ainda não percebemos o que funciona com o nosso filho, continuamos à procura (podendo sempre recorrer a um especialista). Como qualquer outro processo que envolve pessoas, uns dias corre melhor, outros menos bem, mas o importante é que não desistamos de criar uma base de entendimento.

É preciso, pelo menos, controlar a quantidade de críticas, de gritos, quebrar essa rotina de confronto e acusações. Isso apenas faz com que fiquemos com a sensação de que não somos bons educadores e os nossos filhos com a ideia de que nos desapontam.

O essencial, no final das contas, é que os nossos filhos associem emoções positivas ao acto de aprender.

E tentemos ouvi-los. Conversar com eles, indagar sobre aquilo que os incomoda e se reflecte na eventual aversão ao estudo. E, já agora, assegurar que estaremos sempre ao lado deles, no erro e nos Muito Bons, porque nada há que nos separe.

2 Replies to “Como sobreviver aos TPC (e até gostar)”

  1. Conheci hoje este projeto e gostei dos artigos que li. Parabéns.
    Este em especial interessou-me porque estamos exactamente numa fase negativa lá em casa, relativamente a este tema. E o artigo parece muito útil na teoria. Mas parece-me apenas escrito para famílias onde só existe o aluno visado. E quando existem irmãos? Principalmente mais pequenos, ainda sem TPC, que também precisam da atenção da mãe? A mãe não pode dedicar-se assim sempre, exclusivamente, ao filho que precisa de ajuda com os TPC ou com o estudo. Que soluções?
    Obrigada e boa sorte para o projeto

    1. Patrícia, Obrigada pelo seu comentário. É muito bom para nós saber que está a gostar.
      A sua questão faz todo o sentido. Quando há só um filho é mais fácil dedicar-lhe o tempo necessário. Mas, como em tantas outras áreas, com mais filhos temos de ser mais engenhosas. Por exemplo, eu tenho um filho de um ano e meio que tenho de gerir nestes momentos de estudo. Percebi que a melhor maneira de o sossegar é sentá-lo ao pé de nós, na cadeira de refeição, com folhas brancas e lápis de cor. Acho que se sente a imitar a irmã e fica ali uma meia hora bastante sossegado, o que é suficiente para ela fazer os tpc. Além disso, criar um ambiente propício aos tpc não implica estar sempre sentada ao lado dos nossos filhos. Muitas vezes, ela trabalha enquanto estou na cozinha a preparar o jantar, com o mais pequeno ao colo. Tento sim manter-me disponível, vigilante, e instituir as rotinas que nos ajudaram a atenuar o tal “pesadelo”. Espero tê-la ajudado 🙂

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