“Será que amanhã vai correr tudo bem, mãe?” São 21:30, estamos a deitar o nosso filho e vemos nos olhos dele alguma ansiedade e uma dose de tristeza. A nossa vontade é passar-lhe a mão pela cabeça e dizer que sim, que os problemas vão desaparecer, que o beijo da mãe resolve tudo e que um pouco de colo basta para apaziguar o coração sobressaltado.

Mas ele já não tem 2 anos, já não encerramos em nós tudo o que ele precisa para ser feliz. O mundo dele já se abriu ao mundo lá fora, nomeadamente na escola, onde as palavras dos amigos e a relação com os professores ditam, e muito, a forma como ele se vê a si mesmo e aos outros.

E todos nós sabemos como a escola pode ser dura. No recreio, em grupo, na forma como nos julgam e avaliam dentro e fora da sala de aula. Por melhor que seja a experiência, implica sempre dias e fases mais complicadas.

Muitos dirão que tudo passa e que faz parte do crescimento, mas só quem deixa um filho triste e inseguro no portão da escola sabe quão difícil é vê-lo ir, aceitar que terá de travar as próprias batalhas e virar costas quando todo o nosso corpo nos empurra para o proteger.

 

As batalhas dentro e fora da aula

À minha volta sucedem-se os casos de filhos de pessoas que conheço bem, que passam os recreios sozinhos porque os amigos os rejeitam. Ou porque não são craques a jogar à bola, ou porque são pouco hábeis socialmente ou porque há neles alguma diferença face a um certo padrão. Mesmo não se tratando de bullying, é uma carga pesada para suportar diariamente.

Não é por acaso que uma das minhas melhores amigas fica com o coração apertado às 12:30 pois sabe que a essa hora a filha está a vaguear pelo pátio da escola, sem amigos com quem brincar. E também não é por acaso que já encontrei um pai, à chuva, a espreitar pelo arbusto da escola, na tentativa de ver se o filho estaria bem.

Há também casos, muitos mais do que imaginei existir, de professores que também eles contribuem para um ambiente hostil. Humilhações, críticas afiadas ao mínimo erro existem e não são assim tão raras, mesmo em estabelecimentos de ensino com destaque nos rankings anuais.

Nenhuma destas situações, dentro e fora da aula, são resolvidas de um dia para o outro, mesmo quando atingem proporções mais graves. E, nesses dias, o que podemos dizer-lhes? E o que fazemos à nossa angústia? E como respondemos à pergunta…

 

Mas, afinal, vai correr tudo bem amanhã ou não?

A verdade é que não sabemos. Sabemos que têm de crescer, sabemos que é na relação com os outros que eles também se vão construindo, e que dói muito vê-los passar por essas dificuldades. Sentimos na pele o coração amachucado que, sendo deles, bate também em nós.

Esta tem sido uma das minhas aprendizagens mais recentes enquanto mãe. No fundo, passamos de cuidadores primários a vigilantes contidos. Observadores com o coração cheio de amor, mas que devem agir com prudência, defendendo ferozmente os filhos se necessário, mas sem melindrar o processo natural de autonomia e crescimento.

Não, não sabemos se vai tudo correr bem amanhã. Amanhã pode ser pior ou melhor, haverá sempre dias bons e menos bons. E assumir isso, perante os nossos filhos, não é admitir uma fraqueza. É ajudá-los, desde já, a perceber que a vida é feita de incertezas e de cinzentos. Que o tudo ou nada é reservado para muito poucas ocasiões e que gerir a dúvida é uma arte.

E, muito importante, para eles e para nós, é estarmos sempre todos conscientes de que há algo que ninguém lhes tira: o nosso abraço, diário, inabalável, resistente. Há que alimentar a relação, conversando, partilhando sentimentos e experiência, cultivando um sentido íntimo de família.

Porque mesmo que amanhã seja um dia horrível, o nosso filho pode travar as suas batalhas sabendo que tem sempre para onde regressar. E isso é a maior das armas para enfrentar o mundo e o ganhar.

 

Fotografia: Istockphoto

2 Replies to “Como se deixa um filho, triste, na escola?”

  1. Enfrentar, sim, já ganhar tenho dúvidas…
    Porque os outros sabem ser cruéis. E o nosso abraço ao final do dia já pode ir tarde e não conseguir fechar a ferida que abriu demasiado durante as horas de um longo dia em que o meu filho esteve sozinho entre aqueles que o rejeitam.

    1. Olá Nina,
      Obrigada pelo seu comentário. Há feridas difíceis de fechar e dói horrores vê-los sofrer. Mas o amor que lhe temos, e esse abraço (que encerra empatia, compreensão, tempo e dedicação) é fundamental. Não evita as cicatrizes mas ajuda-os a encará-las e a dar-lhes a devida importância. Um beijinho.

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