Caros pais e mães que eu conheço,

Há várias razões pelas quais as pessoas (como eu) decidem não ter filhos. Arrisco a dizer que haverá tantas razões diferentes quantas as pessoas que escolhem ter uma vida sem descendência. Para que fique claro, não me refiro a quem apaixonadamente tenta ter filhos pela via normal ou, desafiando a natureza, o faz por via médica. Falo, apenas, das pessoas que escolhem, de forma mais e menos consciente, mais e menos informada, viver uma vida sem filhos.

Como em quase tudo o que tem a ver com decisões deste foro, não há certo e errado, há pessoas que fazem escolhas na melhor das suas capacidades e possibilidades. A tomada de decisão é sempre um encontro entre o que sabemos, o que sentimos e o que é a nossa experiência e, no meu caso,

desde que me lembro de ser pessoa, nunca tive a mais pequena inclinação para ter filhos. Haverá razões para isso?

Talvez, nunca explorei o tema, mas interessa pouco saber a razão de algo que sinto tão profundamente. Seria como questionar-me por que razão tenho dois braços e duas pernas.

No entanto, e ao contrário de ter braços e pernas, os quais ninguém questiona, já a escolha de não procriar me parece pesada, não por imposição de um sentir meu, mas por definição das regras de vida de outros. Já ouvi de tudo. Que me vou arrepender, que não faz sentido, que não sei o que perco e, a verdade, é que nunca saberei. Mas vivo bem com isso, ao contrário de vocês que, já contentes e plenos de tudo o que acham que eu não vou viver, se agigantam no apontar de dedo.

E de tudo o que é mau na vossa atitude, há um detalhe que me magoa particularmente: o modo como reagem quando as vossas crianças se aproximam de mim.

Há um certo esquivar vosso (curiosamente não meu, nem da criança), como se elas me estivessem a incomodar, a maçar, como se o universo delas me fosse tão estranho que não soubesse reagir ou contracenar com elas. Ou, em casos extremos, como se tivesse lepra. Sabem a quantidade de vezes que já ouvi “não chateies a tia Sílvia que ela não tem filhos e não está para te aturar”?

Caso não se tenham ainda apercebido, uma mulher sem filhos também já foi uma criança.

Não precisam de ficar embaraçados quando vou a vossa casa, naturalmente em caos infantil, e desculpar-se que “com filhos é impossível ter a casa arrumada.” Ou quando querem falar do vosso filho porque têm o coração a rebentar de amor e tudo o que vos apetece é registar as gracinhas que ele faz. Eu entendo tudo isso. Eu entendo o amor de um pai e de uma mãe por um filho. Só não os quero para mim, não quero ser responsável pela vida de um ser humano que não pede para nascer porque o primeiro direito de uma criança é o de ser desejada e eu nunca desejei o suficiente ser mãe de uma.

Mas isso não significa que não possa gostar dos vossos filhos, amá-los, até, e protegê-los e ajudá-los como qualquer mãe faz com a sua cria. Por isso, pelo amor da santa, pelo menos de vez em quando, tentem ser mais como os vossos filhos e menos como os vossos pais. Vamos todos dar-nos muito melhor.

Agradecida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *