Esqueçamos, por momentos, o contexto escolar, em que o bullying infelizmente se popularizou. Pensemos agora em pais, mães, irmãos, a quem estamos ligados pelo sangue e pelo coração, que existem em nós desde que nós existimos. Mas que são capazes de nos ferir profundamente.

Talvez exista um termo para as agressões continuadas em contexto familiar. Não o conheço. Mas decidi usar o bullying porque os sentimentos que convoca em mim são os mesmos dos dias mais negros do liceu: tristeza, vergonha, culpa, medo. Tudo provocado por alguém que, usando do seu ascendente emocional, não se inibe de criticar, ameaçar, fazer chantagem.

Pode ser uma mãe amarga, que apenas se aproxima da filha para a humilhar. Pode ser um irmão que só ama em troco de dinheiro. Ou um pai que não se inibe de culpar os filhos pelo fim do casamento com a mãe deles. Acusam, agridem, numa espécie de terrorismo emocional, com a mais potente arma na mão: o amor que lhes temos.

 

Os porquês

Quando somos filhos ou irmãos de pessoas manipuladoras e profundamente egoístas, que nos agridem repetidamente, é quase impossível não nos questionarmos:

“Por que razão esta pessoa não me ama como era suposto? “Por que razão me magoa e não tem qualquer empatia pela minha dor?”

Podemos até dizer que são pessoas perturbadas, doentes, traumatizadas que repetem comportamentos de que foram alvo. Podemos justificar e até entender, contextualizar. Mas a resposta a estas perguntas atira-nos quase sempre para um vazio, o da rejeição.

Por mais que a razão nos dê explicações legítimas e provavelmente mais próximas da realidade, ocorre-nos, de forma mais ou menos consciente, que o problema somos nós.

À dor de ser agredida, junta-se a dor solitária de ter uma mãe, um pai ou um irmão que não o são verdadeiramente. É a dor do vínculo quebrado, do amor esvaziado de amor, muitas vezes embebida em sentimentos de culpa e insuficiência.

E é dentro deste novelo de emoções, algumas delas até contraditórias, que nos resta decidir se queremos manter aquela relação, tóxica e vazia de afecto, ou não.

 

Pôr termo à agressão

Mesmo que saibamos que o melhor para nós é cortar com quem nos agride, afastarmo-nos de um pai ou de uma mãe (mesmo com os que há muito se demitiram dessa função) tem várias implicações.

Além dos factores emocionais, muitos deles inconscientes, que nos fazem adiar a decisão, pesa-nos:

  • A probabilidade de um encontro numa reunião de família ser muito elevada e de esse encontro ser bastante desconfortável (ou mesmo explosivo) se houver uma relação oficialmente cortada (muito provável)
  • Que, ao decidir cortar, podemos também estar a fazer sofrer outros elementos da família (talvez)
  • Que, ao afastarmo-nos dele ou dela, estamos também a arrastar os nossos filhos nessa decisão, se os tivermos (muito provável)
  • Que mais vale ter um pai, mãe ou irmão presentes, mesmo nefastos, do que não os ter (altamente discutível)

Estes e outros pensamentos levam-nos adiar ou mesmo nunca chegar ao afastamento, a essa recusa clara e inequívoca em sermos magoados.

 

Até que…

Não vos sei dizer quantas agressões são suficientes para que consigamos tomar a decisão. Ou qual é o grau de crueldade que já não conseguimos tolerar. Pode ser até que se trate apenas de mais uma ofensa, menos grave que outras, mas nós, simplesmente, mudámos e não queremos mais ser tratados daquela maneira. Depende de cada um, das suas forças e fragilidades, do contexto que se vive.

Nem todos chegamos a esse ponto limite, e vamos vivendo uma paz podre. Mas, às vezes, chegar ao limite é uma bênção. Não porque nos atire para uma dimensão mais feliz, mas porque nos dá coragem, ânimo, presença de espírito, para dizer “basta”. É muito doloroso, mas simultaneamente libertador.

Aceitar que aquela pessoa não nos ama como poderia (ou deveria) amar, que não nos respeita e é incapaz de se comover com o nosso sofrimento, é o primeiro passo e um exercício de amor próprio. Depois enfrenta-se a logística da coisa, o exercício do corte, que por mais saudável que seja, não é como beber um copo de água.

Como podem perceber, já senti na pele tudo isto. É uma ferida que me dói, ali debaixo da pele, e que me acompanha todos os dias. Talvez por isso não consiga ter mais perspectivas além desta, a minha.

Por isso mesmo, gostava muito que partilhassem comigo as vossas experiências. Talvez aqui nos possamos ajudar, mutuamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *