Um dos meus desafios diários é conseguir entrar em casa e deixar as preocupações na rua. Bater a porta e ficar quase automaticamente em modo zen, capaz de dar atenção e foco à família. Mas como chego em modo TGV, levo algum tempo (para não dizer muito) a abrandar.

Nesse ritmo acelerado que assumi às 8:30, no trânsito, e que vou mantendo ao longo, é-me mais natural continuar preocupada. E, em vez de estar com os meus filhos, acabo por me focar, quase exclusivamente, no que há a resolver: a comida, a roupa do dia seguinte, os recados para a escola, etc.

Nada contra isto, até porque é incontornável e necessário para o bem-estar deles. Mas sei hoje que não preciso de o fazer em modo automático e que até esse tempo corrido pode ser bem aproveitado e coexistir com os tais momentos de intimidade familiar de que todos precisamos. Sim, todos, nós e eles.

 

Fazer bom uso do tempo que temos

No meu caso, e acredito que no de tantas outras mães, é pouco realista pensar que, nos dias de trabalho, vou conseguir chegar a casa às 18:00 para brincar com plasticina e fazer um bolo com as crianças. Portanto, decidi deixar o cenário ideal de lado e, como costuma dizer a Sílvia, “trabalhar com o que temos”.

Por mais que o desejável fosse ter todo o tempo do mundo para que ele naturalmente se torne fluido, bom, harmonioso, a vida adulta mostra-me todos os dias que temos de accionar alguns catalisadores: não esperar pelo momento, mas sim criá-lo, planeá-lo, executá-lo, apanhando boleia de tarefas quotidianas.

E por isso hoje deixo-vos aqui algumas ideias que têm funcionado comigo e com os meus. Cada família terá as suas rotinas e dinâmica, mas talvez estas vos possam ajudar.

 

1. Todo o tempo é tempo para conversar

Enquanto os vestimos ou estamos no trânsito, há sempre margem para nos mantermos ligados. Se não deixarmos que o stress e a tarefa nos envolvam demasiado, podemos aproveitar para lhes fazer perguntas sobre o que gostam e não gostam, o que lhes acontece, a opinião que têm sobre o mundo. O mote pode ser uma notícia que ouvem na manhã da TSF ou uma piada do RAP na Comercial.

Não esperemos que eles tenham muito assunto connosco na adolescência se, na infância, não mostrámos interesse sobre quem são e o que pensam. Não esperemos que nos ouçam com atenção quando não os ouvimos a eles. São seres humanos em evolução constante, a crescer todos os dias, e cabe-nos fazer o download do seu software que actualiza mais rapidamente que o do Iphone.

 

2. Podemos sempre pô-los a trabalhar

Não vale a pena começar já a procurar o número da CPCJ. O que quero dizer é que as crianças estão geralmente dispostas a ajudar-nos se isso implicar fazerem tarefas de crescidos. Se forem como esta vossa amiga, que geralmente acho que é mais fácil ser eu a fazer tudo para despachar, mas às vezes é melhor perder algum tempo a incluí-los na tarefa e assim aproveitar para estar com eles (em vez de tratar deles).

É pedir para mexerem o arroz, temperar os bifes ou pôr a mesa. Aproveitar para relembrar o truque que a avó nos ensinou ao fazer a cama para evitar que os cantos se desfaçam. Claro está que tudo isto depende da idade deles e do que são capazes de fazer em segurança, mas dá para adaptar, com vigilância e criatividade.

 

3. Esticar a hora da manhã

Bem sei que podem ser horas de terror, em modo tripulantes em fuga do Titanic, mas há dias em que se acordássemos 20 minutos mais cedo tudo seria melhor. Teríamos mais uns minutos para os acordar com calma, para falar do teste que vai acontecer dentro de algumas horas e que os tem deixado ansiosos, ou apenas para conviver alguns minutos.

Para mim, que preciso de dormir bastante para me sentir bem, não é tarefa fácil e confesso que é raro conseguir alargar os encontros matinais. Mas quando o faço, resulta.

 

4. Aproveitar a hora de ir dormir

Bastam 10 minutos, regulares e focados, para que uma criança sinta que tem ali um tempo de antena. Já escrevi aqui na Liiv sobre a forma como estas conversas nocturnas têm sido mágicas para mim e para os meus filhos e de como foi engraçado perceber que psicoterapeutas como Kenneth Barish as suportam cientificamente.

Podem não acontecer todos os dias, mas acredito que é mesmo importante criar um hábito de comunicação naquele momento antes de deitar. É muitas vezes nessa hora do dia que as preocupações e ansiedades nos assolam, pois esgotaram-se as distracções. E é assim com muitas crianças também.

 

5. Levá-los para a ginástica

Se já tem nos seus planos ir, vá, duas vezes ao ginásio por semana, que tal ir uma das vezes com o seu filho? Além de o arrancar do sofá e combater/prevenir uma da ameaças nacionais que é a obesidade infantil, podem criar momentos divertidos juntos (para compensar os dos inevitáveis sermões e fazes-assim-porque-eu-disse).

Em Lisboa há, pelo menos, dois ginásios com aulas para pais e filhos. Conheço o Go Fit, no Campo Grande, e o 1Fight, na Avenida da República. Tenho-me divertido muito com a minha filha a fazer CrossFight Family (que já se tornou, por causa da pressão dela, a aula a que eu não consigo faltar).

 

6. Back to basics: brincar, imaginar

Isto é particularmente importante no caso de crianças mais pequenas, pois é através da brincadeira que elas comunicam e aprendem a relacionar-se com o mundo.Pode ser também através de role plays, pequenos teatrinhos que fazemos com eles, em que lhes conseguimos passar algumas mensagens: partilhar, não bater, colocar-se na perspectiva do outro.

De qualquer forma, o exercício da imaginação é importante para todos, mesmo para os adultos. É um momento de liberdade, de exploração, de concentração. Por algum motivo Einstein dizia que a imaginação era mais importante do que o conhecimento.

Por isso, recupere os seus brinquedos de infância ou descubra estes, que tão bonitos são, e invente uma ida às compras, uma viagem por uma floresta ou uma disputa em torno de um gelado. Vale tudo, não é preciso muito tempo e é fantástico.

 

7. Usem o Ipad, juntos

Ontem à noite, a minha filha e o pai estiveram uma boa meia hora a jogar Minesweeper (um antigo jogo electrónico de identificação de minas com base em números). Digamos que não é propriamente uma coisa nova, mas ela adorou e o pai gostou muito de jogar com ela. Cheira-me que um dia destes vem aí o Tetris ou qualquer outra novidade do género.

Os tablets e afins são uma verdadeira tentação e sugam a atenção de tudo e todos. Mas quando são usados com moderação (como tantas outras tentações) e com um propósito, podem proporcionar boas experiências.

Neste caso, serviu para treinar o raciocínio matemático e para unir os hábitos de duas gerações. Foi o mote para o pai lhe contar o que fazia nas longas tardes livres num tempo em que as distracções não eram tantas.

 

Portanto, mais do que viver com a culpa do tempo que não se tem, tentemos encarar o que temos com um sentido prático e útil. Além do bem que isso tem feito aos meus filhos, nem imaginam como percebi o bem que me tem feito a mim. Tem sido a maior ajuda no esforço em deixar o ruído da rua onde ele deve estar: lá fora.

 

Family Time é uma rubrica produzida pela Liiv com o apoio da Knot, dedicada aos temas que envolvem pais e filhos, na procura por um melhor entendimento de si mesmos, da família e do tempo que passam juntos.
Para mais informações, visite www.knotkids.com e siga @knot_kids no Instagram

 

Fotografia: Istockphoto

2 Replies to “Aproveitar o tempo com os filhos (quando não se tem tempo para nada)”

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