Não há dúvidas de que o leite materno é o melhor alimento para um bebé e que a amamentação tem inúmeros benefícios, não só em termos de saúde física, mas também da ligação emocional entre a mãe e o bebé.

Sabendo de tudo isto, amamentei a minha filha e não amamentei o meu filho, sete anos depois. E, neste preciso momento em que escrevo, quase sinto o peso de alguns olhares reprovadores. Porque eles existem, fazem-se ouvir e carregam de culpa e de pressão a maternidade e, em particular, a decisão de dar ou não de mamar.

 

A mãe que somos, a que queremos ser e a que os outros querem que sejamos

Algumas das minhas melhores memórias pós-parto envolvem ter os meus filhos pele na minha pele, agarrados ao meu peito. Saber que os alimentava com o meu próprio corpo fazia-me sentir poderosa, num prolongamento da gravidez. No caso da minha filha, durou meses. No do meu filho, três dias.

Lamentei quando o meu leite acabou ao final de quatro meses, mas chorei uma noite inteira quando percebi que não estava capaz de levar a amamentação por diante, apesar de ter previsto fazê-lo. Foi uma decisão pessoal difícil, agravada pelo facto de ter de lidar com o dedo em riste, pronto a bombardear argumentos, de várias pessoas (desde outras mães a alguns profissionais de saúde).

Sentia-me a defraudar o meu filho, mas estava também consciente de que não tinha, naquele momento, condições físicas e emocionais para avançar. Foi uma escolha minha, íntima, em que pesou o meu bem-estar e o do meu bebé. Apesar de sentir que estava a fazer o mais correcto para nós os dois, não deixei de me sentir triste e frustrada, algo que foi, sem dúvida, agravado pela insistência de algumas pessoas em converter-me para uma causa na qual eu sempre acreditei.

Mas não esqueço uma frase que me foi dita, numa manhã difícil, ainda na maternidade:

O seu filho precisa mais de uma mãe do que de uma mama. E mais vale um biberão dado com amor e tranquilidade, olhos nos olhos, do que uma mama em angústia e sofrimento.

Não me lembro do nome desta pessoa, mas sei ter sido uma médica que me visitou naquele dia e olhou para mim. Como uma pessoa, e não como mais uma mãe a quem tem de se vender os benefícios do leite materno. Eu já estava a sofrer, tinha decidido em consciência, não precisava de ser inquirida e julgada.

 

Querer, não querer e conseguir

Eu planeei dar de mamar, mas, entretanto, decidi não o fazer. Além da dor que sentia, a gravidez turbulenta que tinha vivido deixou-me num lugar de alguma fragilidade que pedia descanso, horas de sono prolongadas, incompatíveis com uma amamentação em livre demanda.

Mas também há mães que, com toda a legitimidade, simplesmente não querem dar de mamar. Tenho sérias dúvidas que desconheçam as qualidades do leite materno e não desejem o melhor para os filhos. Talvez prefiram não amamentar porque a prática em si lhes faz impressão, porque remete para memórias que não querem revisitar, por motivos que não nos cabe a nós julgar e que têm que ver com a sua história pessoal.

Escolher dar de mamar é tão legítimo como não o querer fazer. E respeitar a decisão e o bem-estar da mãe é, para mim, tão necessário como promover a alimentação perfeita para o bebé.

Quem está habituado a lidar com grávidas e recém-mães, como é o caso da Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta de bebés e conselheira de aleitamento materno pela OMS, defende que lidar com as mães que não o querem fazer passa pela compreensão, não pela evangelização.

“Às grávidas que dizem não querer amamentar, peço apenas para se permitirem mudar de opinião quando o bebé nascer, pois isso às vezes acontece.”

Há quem defenda que o direito do bebé a ser amamentado prevalece sobre a vontade da mãe em amamentar. Mas a Constança é clara na sua opinião, com a qual concordo plenamente: “uma mãe que tenha ponderado as hipóteses e não queira mesmo amamentar pode estar muito bem a tomar a decisão que é a possível para si e o seu bebé. E isso é algo tão único, tão subjectivo e tão pessoal, que não faz sentido a interferência de ninguém de fora.”

No limite, essa conversa pode ser tida numa esfera íntima, familiar ou terapêutica, mas nunca num prós e contras público, extremado, em que a mãe é criticada e obrigada a justificar-se, mal sai da sala de partos.

“Por vezes, as decisões das mães são para salvar-se a si próprias (e com isso estão também a salvar os seus bebés).”

A batalha das boas e más mães

Felizmente vivemos num tempo em que o acesso à informação é fácil, em que há espaços onde as mães são ajudadas a superar os vários desafios da amamentação e a desfrutar mais dela (e de toda a maternidade). Mas é também verdade que nunca tivemos à nossa disposição tantos canais para opinar sobre os outros, as suas vidas e as suas escolhas. E para nos compararmos.

Sejamos prudentes a julgar, tanto a nós mesmas como às outras mães, e selectivas em relação a quem damos ouvidos.

Como diz a psicanalista francesa Myriam Szejer, autora do livro L’Art de nourrir les bébés, no âmbito da amamentação, “a boa mãe é aquela que alimenta o bebé da forma como decidiu fazê-lo e que a deixa confortável. É a que se escuta a si mesma e ao seu filho, dando-lhe mama ou biberão. E se as necessidades de ambos são consideradas, a decisão é uma boa decisão”.

 

Family Time é uma rubrica produzida pela Liiv com o apoio da Knot, dedicada aos temas que envolvem pais e filhos, na procura por um melhor entendimento de si mesmos, da família e do tempo que passam juntos.
Para mais informações, visite www.knotkids.com e siga @knot_kids no Instagram

 

Fotografia: Istockphoto

6 Replies to “Amamentação: vamos parar de perseguir as mães?”

  1. Sempre planeei amamentar, mas nunca me “entendi” com os meus bebés nessa área e a verdade é que não sei se efetivamente tive pouco leite ou se foi o stress de não estar a conseguir ser o tal protótipo da mãe perfeita que levou a que isso acontecesse. Senti inúmeras vezes o julgamento e olhares reprovadores, maioritariamente de profissionais de saúde, mesmo quando os meus filhos não cresciam e corriam riscos maiores do que os que adveem de beber um biberão. Mas a pediatra deles disse-me simplesmente “era o que faltava o bebé passar fome” e foi talvez a única pessoa, juntamente com o meu marido, que entendeu o que se estava a passar comigo e com cada um dos meus bebés. Ainda assim, senti muitas vezes necessidade de me justificar aos outros até tomar consciência de que este era um assunto que me dizia respeito de forma exclusiva. Nesse momento, libertei-me de um peso que me foi colocado aos ombros por uma sociedade pró-amamentação, da qual também faço parte pois reconheço todos os benefícios inerentes, mas compreendi e aceitei que este é um tema privado, a ser discutido apenas no seio familiar e sobre o qual nunca conhecemos todos os pormenores pois eles apenas dizem respeito a cada mãe e ao seu bebé.

    1. Obrigada, Rita. Como a percebo… é bom falarmos sobre isto, com respeito e sem preconceitos. Talvez assim consigamos aliviar a pressão que existe sobre tantas de nós. ❤️

  2. Revejo-me na íntegra! Sempre a tratarem-se como se fosse incapaz, falhará ou má Mãe! Sempre com reprovação… não tinha leite, a menina não ia sofrer com or uma imposição social!!! 🥺

    1. Claro, Margarida. Estas coisa das boas e más mães é uma grande embrulhada, recheada de julgamentos precipitados e totalmente desnecessários. Obrigada por ler a Liiv 🙂

  3. Eu estou no lado oposto do espectro. Amamentei os meus filhos até tarde. Quando o meu filho mais novo nasceu, o irmão ainda mamava ocasionalmente (com 2 anos). Fui bastante criticada por alguns profissionais de saúde, amigos e familiares. O mais novo, agora com 18 meses continua a mamar. Estou constantemente a ouvir comentários depreciativos e jocosos (tipo : já chega, não?)… Basicamente, devemos fazer a escolha certa para nós. E aceitar que opções diferentes não colocam a nossa opção pessoal em causa.

    1. Obrigada, Sara, por partilhar connosco a sua experiência. Desde que a escolha seja consciente e pondere as vantagens e desvantagens para ambos, mãe e filho, só há que respeitar. Ainda bem que conseguiu fazer o que entendeu ser certo para vocês, que é o que interessa. E, já agora, seja bem-vinda à Liiv 🙂

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