Não há uma única família que não tenha problemas. Por mais afectivos e atentos que sejamos aos nossos filhos, haverá sempre momentos de tensão, confronto, discussão. Por mais que os amemos com toda a nossa alma, eles vão portar-se mal, fazer birras, responder torto e exigir mais de nós do que acreditamos conseguir dar.

Todos nós, pais e filhos, passamos por momentos de frustração e de desânimo. E ambos conhecemos a sensação de não ver solução à vista e de nos sentirmos num beco sem saída. Cheio de amor, mas com pouco horizonte.

Nós, adultos, mães e pais, vamos passeando de mãos dadas com a culpa e com a dúvida sobre o certo e o errado, a forma como poderemos estar a condicionar a personalidade e o futuro daquela criança. Eles, os miúdos, ficam defensivos e inquietos. E, às vezes, é difícil desatar o nó que substitui o tão bonito laço familiar.

Por saber como isto pode ser um desafio, quero hoje recuperar aqui alguns conselhos que aprendi com o psicoterapeuta Kenneth Barish, especialista em crianças e adolescentes. Estas linhas orientadores têm-me sido mesmo muito úteis e muito do aqui vos conto cruza-se com aquela que tem sido a minha experiência diária.

 

1. Recuar um passo

Antes de avançar, importa saber recuar, ganhar perspectiva. Vale a pensa pensar por que razão uma velha fórmula parece já não resultar com o nosso filho. Será que temos estado envolvidas nos interesses dele? Teremos sido demasiado críticas e intempestivas? Será que os temos desrespeitado para merecer tal comportamento?

Como em qualquer relação, é importante não sermos meramente reactivas. Antes de avançar, o melhor é mesmo pormos tudo em causa, a começar por nós. Não é fácil, principalmente se estamos muito irritadas, mas é um passo essencial se queremos chegar a bom porto.

Nesse sentido, há que realmente escutar. Escutar a criança, tentar perceber o seu lado, o seu ponto de vista, mesmo que ela não tenha muito a dizer ou lhe faltem alguns anos e maturidade em emocional para elaborar sobre o tema. Digamos que importa encontrar a causa por detrás da birra, da zanga, da falta de vontade de ajudar em casa ou de fazer os tpc.

 

2. Colocar o problema aos nossos filhos

Na maior parte das vezes, os pais avançam para a solução, ou seja, o castigo ou a nova regra, sem que as crianças estejam envolvidas na solução. Dou um exemplo: se uma criança quer passar muito tempo a ver o tablet, nós atiramos com um “a partir de hoje, não te deixo ver isso mais do que 10 minutos”… e inicia-se logo ali uma discussão. Por que não dizer: “nós temos muitas vezes um problema quando eu te peço para desligares o tablet”.

Isso coloca-os numa mesma posição e necessidade de entendimento, e não numa de confronto e negociação acalorada. É algo que, no limite, vos liga, não vos opõe. E, ao envolvê-lo no processo (e não só na consequência), a possibilidade de resolução aumenta, dizem os especialistas.

 

3. Pedir sugestões aos nossos filhos

As crianças que são convidadas a procurar soluções libertam-se mais rapidamente de sentimentos de raiva e rebeldia, e menos reféns de exigências ou discussões. Se lhes estamos a dar uma voz, não precisam de a reclamar, certo?

Além de ser importante a curto prazo, este envolvimento dá-lhes também uma grande lição de vida. Todos temos de saber negociar, ceder, chegar a um caminho de entendimento, se queremos viver em sociedade e equilíbrio.

Há, porém, muitos pais e mães que se sentem melindrados aos pedirem sugestões. Como se isso fosse um ataque à sua autoridade, herança de um modelo parental mais rígido e tradicional. O melhor será escolher as batalhas, digo eu. Há, de facto, regras e princípios inegociáveis (não mentir, não roubar, não insultar, etc) e consequências indiscutíveis, mas talvez valha a pena ser mais flexível noutros campos, menos sensíveis, mas em que uma solução de compromisso pode ser vantajosa para todos.

 

4. Criar um plano

Este psicoterapeuta garante, pela sua experiência pessoal e profissional, que quase todas as crianças respondem positivamente ao anúncio “tenho um plano”. Ficam curiosas, ouvem com atenção, pois elas, no fundo, também o desejam. E se temos atenção delas, já temos algo fundamental.

O plano pode ser ter um novo horário ou local para estudar, ou uma novo sistema de responsabilidades e privilégios. Esse plano tem de ter regras, porque todas as famílias têm e devem ter regras. E se as crianças estiverem desde logo envolvidas na sua criação, e esse plano resultar também de se sentirem escutadas e vistas pelos pais, o potencial de sucesso aumenta.

 

5. Mostrar apreciação e elogiar o esforço e sucesso

Há que ter, preparado a usar, um saco cheio de elogios e palmadinhas nas costas. Devemos ser generosas a valorizar as tentativas dos nossos filhos em obedecer-nos e agradar-nos. Às vezes, o reconhecimento de um simples gesto pode operar milagres no estado de espírito de uma criança (e nos nosso também, certo?).

O reconhecimento é um princípio básico da resolução de problemas e da manutenção de relações saudáveis entre pais e filhos e, creio, entre todas as pessoas. O dia-a-dia consome-nos e nós vamos deixando para trás muitas coisas que parecem supérfluas, mas que são essenciais. O elogio, o reconhecimento, é uma delas.

Não há equipa mais unida do que aquela que se junta por amor. Por isso, façamos todo o esforço de manter esse sentido de colaboração na ordem dos nossos dias. Talvez a manhã seguinte seja mais simples se, antes de deitar, perguntarmos ao nosso filho: “como achas que nos estamos a safar com o nosso plano?”

 

Apenas uma nota final: se o problema persistir, se o seu filho ou filha se mantiver, apesar de todos os esforços, irredutível quando a ir à escola sem dramas ou a cumprir uma outra qualquer regra, evite rotulá-lo.

Palavras como preguiçoso, malcriado ou insuportável podem estar logo ali debaixo da língua. Mas alimentá-las só ajuda a esconder a verdadeira causa, que tanto podem ser um distúrbio de atenção ou aprendizagem, como uma reacção a uma frustração que não conhecemos.

Nesse caso, peça ajuda. Nunca é tarde para nos conhecermos melhor a nós próprios e aos que mais amamos.

 

Family Time é uma rubrica produzida pela Liiv com o apoio da Knot, dedicada aos temas que envolvem pais e filhos, na procura por um melhor entendimento de si mesmos, da família e do tempo que passam juntos.
Para mais informações, visite www.knotkids.com e siga @knot_kids no Instagram

 

Fotografia: Istockphoto

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